O Brasil deve registrar 781 mil novos casos de câncer por ano até 2028, segundo a publicação Estimativa 2026–2028: Incidência de Câncer no Brasil, divulgada em 4 de fevereiro, data do Dia Mundial do Câncer. Ao excluir tumores de pele não melanoma, de alta incidência e baixa letalidade, a projeção cai para cerca de 518 mil casos anuais.
O novo retrato do Instituto Nacional de Câncer (INCA) reforça um ponto desconfortável para o Sistema Único de Saúde (SUS): o câncer se aproxima das doenças cardiovasculares como principal causa de morte no país, com desigualdades regionais associadas a acesso, rastreamento e oportunidade de tratamento.
No cenário internacional, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), estima que em 2022 havia cerca de 20 milhões de novos casos e 9,7 milhões de mortes por câncer. A tendência é de alta nas próximas décadas, impulsionada pelo envelhecimento da população e pela maior exposição a fatores de risco.
O problema é que parte relevante dessa carga não é inevitável: um estudo de 2024 da Sociedade Americana do Câncer (ACS) estimou que quatro em cada dez casos e quase metade das mortes por câncer, em adultos a partir de 30 anos, estiveram associados a fatores de risco modificáveis, como tabagismo, álcool, excesso de peso, sedentarismo, dieta e infecções preveníveis.
O que é prevenível, de verdade
O dado dos 40% circula muito na mídia, mas há um erro recorrente quando ele vira slogan, ou seja, ele não “prova” que 40% dos cânceres no Brasil seriam evitáveis na mesma proporção, porque a estimativa foi calculada para os Estados Unidos, com perfil de risco, cobertura de rastreamento e histórico de políticas públicas diferentes. O que ele faz é mais útil: mostra o tamanho do impacto potencial quando prevenção e diagnóstico precoce viram política de verdade, não campanha anual.
No Brasil, o próprio INCA coloca a prevenção como eixo central ao listar medidas com efeito transversal: controle do tabagismo, evitar consumo de álcool, alimentação saudável, atividade física, vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) e organização do rastreamento para ampliar detecção precoce e reduzir mortalidade.
Vacinação e rastreamento: onde o tempo conta
A prevenção por vacina é uma fronteira concreta, especialmente contra o HPV, associado ao câncer do colo do útero. No Programa Nacional de Imunizações, o público-alvo regular inclui meninas e meninos de 9 a 14 anos e o Ministério da Saúde ampliou estratégia de resgate para jovens de 15 a 19 anos até 2026.
No rastreamento, o ponto crítico é a aderência às diretrizes e acesso com qualidade. No caso do câncer de mama, o INCA reafirma a recomendação de mamografia de rastreio para mulheres entre 50 e 69 anos, a cada dois anos, como estratégia populacional no país.
O fato é que a prevenção falha menos por falta de conhecimento e mais por ruído de jornada, desinformação, medo, baixa cobertura e atraso de encaminhamento. É nesse ‘meio do caminho’ que a atuação do farmacêutico ganha peso.
O farmacêutico no cuidado oncológico
O farmacêutico é o profissional de saúde mais acessível em boa parte do território, com contato frequente, leitura de histórico medicamentoso e capacidade de orientar condutas seguras. Na prevenção, isso se traduz em triagem de risco, aconselhamento breve para cessação do tabagismo, redução de consumo de álcool, revisão de interações e incentivo dirigido à vacinação e ao rastreamento conforme diretrizes.
Para o professor do ICTQ - Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico e farmacêutico-pesquisador do Instituto do Câncer do Ceará, Nelson Belarmino, afirma que o principal papel do farmacêutico no meio oncológico é garantir a segurança desse paciente. “Para isso, não podemos nos esquecer também da necessidade de estarmos sempre atualizados com a liberação de novas drogas, o que ocorre diariamente”.
Na vacinação, há base regulatória para serviços em estabelecimentos privados, com exigências sanitárias de estrutura, conservação, registro e notificação de eventos adversos, conforme a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 197/2017, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
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A atuação do farmacêutico nesses serviços é detalhada por normas profissionais, como a Resolução do Conselho Federal de Farmácia (CFF) 654/2018 (requisitos para prestação do serviço de vacinação pelo farmacêutico) e a Resolução CFF 16/2024 (prescrição de vacinas por farmacêutico habilitado, nos termos definidos).
No tratamento, o papel do farmacêutico se amplia quando o paciente entra em terapia medicamentosa, especialmente com antineoplásicos orais e esquemas complexos: prevenção de erros, conciliação medicamentosa, checagem de interações, manejo de efeitos adversos, adesão e orientação de uso correto. Em oncologia, falhas simples, como dose errada, horário inconsistente ou automedicação com fitoterápicos e anti-inflamatórios, viram risco real.
Do balcão ao SUS: acesso e equidade
O INCA aponta desigualdades regionais claras: câncer do colo do útero mais incidente no Norte e Nordeste, maior incidência de câncer de estômago em homens nessas regiões e tumores associados ao tabagismo (pulmão e cavidade oral) mais frequentes no Sul e Sudeste.
Nesse contexto, reduzir câncer evitável não depende de heroísmo individual. Depende de rede, fluxo e coordenação. No lançamento da estimativa, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou: “Fazer o Brasil ter a maior rede pública de prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer do sistema público do mundo”.
A diretora da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da Organização Mundial da Saúde (Iarc), Elisabete Weiderpass, resumiu o caminho: “ao investir em informação, planejamento e prevenção baseado em evidência, é possível reduzir o sofrimento por câncer, otimizar recursos e avançar rumo a uma sociedade mais saudável e mais equitativa”.
O farmacêutico é parte prática dessa agenda quando atua com protocolos, registro, encaminhamento e educação em saúde baseada em evidência, dentro de serviços privados e públicos. Sem esse desenho, o Dia Mundial do Câncer vira mais um lembrete simbólico, e os números continuam subindo.
Capacitação farmacêutica
Além da realização profissional e do impacto positivo na vida dos pacientes, a carreira do farmacêutico oncológico também se destaca pelo potencial salarial acima da média. No entanto, a qualificação especializada é um diferencial para quem deseja ingressar na área, já que a profissão exige capacitação contínua, olhar clínico apurado e comprometimento com a qualidade de vida dos pacientes. À medida que as terapias evoluem, a presença desse profissional se torna cada vez mais essencial, garantindo que a oncologia continue avançando de forma segura, eficaz e acessível para todos.
Para aqueles que desejam se capacitar para atuar na área, o ICTQ oferece alguns cursos de pós-graduação, como o Farmácia Hospitalar e Acompanhamento Oncológico. Essa especialização atende aos requisitos da Resolução 640/17 do Conselho Federal de Farmácia (CFF), que estabelece a titulação como pré-requisito mínimo para atuação em oncologia, cujo preparo dos antineoplásicos e demais medicamentos na oncologia é atribuição privativa do farmacêutico.
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