Dois novos casos de possível cura do HIV foram apresentados durante a 26ª Conferência Internacional sobre Aids, a AIDS 2026, realizada no Rio de Janeiro entre 26 e 31 de julho. Com os novos registros, chega a 13 o número de pessoas consideradas em remissão prolongada ou possível cura do HIV no mundo.
Os dois pacientes receberam transplantes de células-tronco para tratar doenças hematológicas graves. Depois dos procedimentos, interromperam o uso de antirretrovirais e seguem sem carga viral detectável, segundo os dados apresentados no evento.
Um dos casos é o chamado “paciente do Kansas”, um homem de 21 anos diagnosticado com HIV e uma forma agressiva de leucemia. Ele recebeu células-tronco de uma doadora com a mutação CCR5-delta32, alteração genética rara que dificulta a entrada do HIV nas células. Após complicações, precisou de um segundo transplante. O tratamento antirretroviral foi interrompido em fevereiro de 2025 e, 14 meses depois, exames continuavam sem detectar vírus capaz de se replicar.
O segundo caso envolve um paciente infectado por duas variantes do HIV. Ele também recebeu células-tronco de um doador com a mutação CCR5-delta32. Quatro anos após o transplante, os antirretrovirais foram suspensos. Após 12 meses sem terapia, os exames seguiram sem identificar vírus replicante.
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Cura possível não significa estratégia ampla
Os novos casos reforçam que a cura do HIV é biologicamente possível, mas ainda não indicam uma solução aplicável à maioria das pessoas que vivem com o vírus.
Todos os casos recentes de remissão prolongada ocorreram em contextos altamente específicos, geralmente em pacientes que tinham HIV e também doenças hematológicas graves, como leucemia, linfoma ou síndrome mielodisplásica. O transplante de células-tronco foi realizado primeiro para tratar essas condições, não como procedimento de rotina para HIV.
O transplante alogênico de células-tronco é agressivo, envolve quimioterapia, risco de infecção, rejeição, doença do enxerto contra o hospedeiro e mortalidade. Por isso, não é uma alternativa viável para pessoas com HIV controlado por terapia antirretroviral.
A relevância desses casos está em outro ponto: eles ajudam a entender quais mecanismos podem eliminar ou controlar reservatórios virais. Essa informação orienta pesquisas em terapia gênica, edição genética, imunoterapia, anticorpos neutralizantes, vacinas terapêuticas e estratégias de remissão sem transplante.
Quem foram os outros casos
A primeira cura amplamente reconhecida foi a do “paciente de Berlim”, Timothy Ray Brown, divulgada em 2009. Ele recebeu transplante de medula óssea de um doador com mutação CCR5-delta32 para tratar leucemia mieloide aguda e permaneceu sem HIV detectável por anos, mesmo sem antirretrovirais.
Depois vieram outros casos que consolidaram a hipótese do transplante com células resistentes ao HIV. Entre os mais conhecidos estão Adam Castillejo, o “paciente de Londres”, tratado por linfoma de Hodgkin; Marc Franke, o “paciente de Düsseldorf”, tratado por leucemia; Paul Edmonds, o “paciente City of Hope”, que também enfrentou doença hematológica; e a “paciente de Nova York”, que recebeu transplante com sangue de cordão umbilical.
Outros casos divulgados mais recentemente incluem o “paciente de Genebra”, que chama atenção por ter recebido células sem a mutação CCR5-delta32; a “paciente francesa”; o “paciente de Chicago”; o “paciente de Oslo”; o “paciente de Toronto”; e agora os dois novos casos apresentados na AIDS 2026.
A contagem pode variar conforme o critério usado, porque alguns pacientes são descritos como curados, outros como provável cura, remissão prolongada ou controle sustentado sem antirretrovirais. A cautela existe porque o HIV pode permanecer em reservatórios e reaparecer após longos períodos.
Por que o HIV é tão difícil de curar
O HIV é difícil de erradicar porque se integra ao DNA das células humanas. Mesmo quando a terapia antirretroviral bloqueia a replicação viral e torna a carga viral indetectável, cópias do vírus podem permanecer em células de memória e em tecidos considerados reservatórios.
Esses reservatórios ficam em estado latente. O vírus não se replica ativamente, mas também não é eliminado. Quando o tratamento é interrompido, essas células podem reativar a produção viral e provocar rebote da carga viral.
Além disso, o HIV tem alta variabilidade genética, consegue escapar de respostas imunes, ocupa compartimentos anatômicos difíceis de acessar e se estabelece muito cedo após a infecção. A terapia antirretroviral transformou o HIV em condição crônica controlável, mas não remove completamente o vírus do organismo.
Esse é o ponto que separa supressão viral de cura. Uma pessoa com carga viral indetectável em uso regular de antirretrovirais não transmite HIV por via sexual, conceito conhecido como indetectável igual a intransmissível. Mas, sem tratamento, a maior parte dos pacientes volta a apresentar replicação viral.
A paciente de Nova York e o transplante haplo-cord
Um dos casos mais importantes da trajetória recente da cura do HIV foi o da chamada “paciente de Nova York”. Ela foi a primeira mulher a alcançar remissão do HIV após um transplante que combinou sangue de cordão umbilical com células de um doador adulto parcialmente compatível.
O caso originou o estudo “HIV-1 remission and possible cure in a woman after haplo-cord blood transplant”, publicado na revista Cell em 2023.
A paciente vivia com HIV e foi diagnosticada com leucemia mieloide aguda. Em agosto de 2017, recebeu um transplante haplo-cord com células de sangue de cordão umbilical contendo a mutação CCR5-delta32 em dose dupla, combinadas com células-tronco haploidênticas de um doador adulto. A estratégia buscava tratar a leucemia e, ao mesmo tempo, substituir parte do sistema imune por células resistentes ao HIV.
O estudo mostrou que, na semana 14 após o transplante, o sangue periférico apresentava 100% de quimerismo derivado do cordão CCR5-delta32, resultado que persistiu ao longo de 4,8 anos de acompanhamento. Também houve perda de reservatórios detectáveis de HIV capaz de se replicar, desaparecimento de respostas imunes específicas ao HIV e resistência in vitro a variantes virais R5 e X4.
A interrupção dos antirretrovirais ocorreu 37 meses após o transplante. No período descrito no artigo, a paciente permaneceu 18 meses sem viremia detectável fora da terapia. Posteriormente, materiais de divulgação apontaram acompanhamento mais longo, em torno de 30 meses sem antirretrovirais.
O caso foi relevante por ampliar o horizonte de compatibilidade. O sangue de cordão umbilical pode ser mais acessível que medula óssea adulta totalmente compatível, especialmente para pessoas de diferentes ancestralidades. Ainda assim, continua sendo uma abordagem de altíssima complexidade, restrita a contextos em que o transplante é indicado por outra doença grave.
A epidemia da Aids ainda exige resposta contínua
A notícia dos novos casos de possível cura ocorre em um cenário global ainda marcado por grande carga da epidemia. Segundo dados do UNAIDS, 41 milhões de pessoas viviam com HIV no mundo em 2025. No mesmo ano, 1,2 milhão adquiriram o vírus e 570 mil morreram por doenças relacionadas à Aids.
Desde o início da epidemia, 92 milhões de pessoas adquiriram HIV. A expansão da terapia antirretroviral reduziu drasticamente mortes e transmissão, mas o acesso permanece desigual. Em 2025, cerca de 32,1 milhões de pessoas estavam em tratamento, enquanto milhões ainda não tinham acesso ou desconheciam o diagnóstico.
Por isso, a busca pela cura não substitui as estratégias já consolidadas. Testagem, início rápido de antirretrovirais, adesão, PrEP, PEP, prevenção combinada, tratamento de infecções oportunistas e redução de estigma continuam sendo o eixo da resposta ao HIV.
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O manejo clínico segue o mesmo
Mesmo com 13 casos de possível cura ou remissão prolongada, o cuidado cotidiano da pessoa vivendo com HIV não muda. A terapia antirretroviral permanece como base do tratamento e deve ser mantida conforme prescrição, com acompanhamento de carga viral, CD4 quando indicado, interações medicamentosas, eventos adversos, adesão e comorbidades.
A atuação farmacêutica segue central nesse percurso. O manejo envolve orientação sobre uso correto dos antirretrovirais, avaliação de interações, identificação de falhas de adesão, suporte em PEP e PrEP, acompanhamento de eventos adversos, organização da farmacoterapia em pacientes com polifarmácia e reforço do conceito de carga viral indetectável.
Na PEP, o tempo é determinante: a profilaxia deve ser iniciada o quanto antes e até 72 horas após exposição de risco, com 28 dias de tratamento. Na PrEP, a efetividade depende de indicação adequada, testagem periódica, adesão e seguimento. No tratamento do HIV, a supressão viral sustentada depende de continuidade, vínculo e monitoramento.
Os casos de cura por transplante são marcos científicos. Mas, até que exista uma estratégia segura, escalável e aplicável à população geral, o trabalho clínico permanece ancorado no uso racional de antirretrovirais, prevenção combinada e acompanhamento farmacoterapêutico qualificado.
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