Entre marketing e ciência: o que se sabe sobre NAD+ e NMN na longevidade

Entre marketing e ciência: o que se sabe sobre NAD+ e NMN na longevidade

A busca por uma “pílula mágica” capaz de retardar o envelhecimento impulsionou o mercado de suplementos voltados à longevidade. Entre os nomes mais populares estão o NAD+ e o NMN, apresentados por marcas e influenciadores como soluções para aumentar energia celular, melhorar metabolismo e preservar a juventude por mais tempo.

Porém, esse tipo de novidade ainda exige atenção do farmacêutico. Cada vez mais pacientes chegam à farmácia perguntando se devem usar suplementos antienvelhecimento, se o NMN realmente funciona, se o NAD+ “rejuvenesce” ou se esses produtos podem substituir hábitos saudáveis, acompanhamento médico ou tratamentos já prescritos.

O problema é que a distância entre marketing e ciência ainda é grande. NAD+ e NMN participam de vias biológicas reais, estudadas há décadas, mas isso não significa que a suplementação seja capaz de retardar o envelhecimento humano de forma comprovada.

A discussão, portanto, não deve ser tratada como modismo nem como milagre. Ela exige conhecimento técnico, leitura crítica da literatura científica e orientação responsável, especialmente porque muitos desses produtos são vendidos com promessas superiores ao que os estudos em humanos conseguem sustentar.

O que é NAD+

O NAD+, sigla para nicotinamida adenina dinucleotídeo, é uma coenzima presente em todas as células vivas. Ele participa de processos fundamentais para o funcionamento do organismo, como produção de energia, metabolismo celular, reparo do DNA, resposta ao estresse oxidativo e atividade de enzimas relacionadas à manutenção celular.

Os níveis de NAD+ tendem a diminuir com o envelhecimento, embora esse processo varie entre tecidos e dependa de fatores como inflamação, dieta, sono, estresse metabólico, doenças crônicas e estilo de vida.

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Essa queda ajudou a transformar o NAD+ em alvo de pesquisas sobre longevidade. A lógica é simples: se o NAD+ participa de processos celulares importantes e diminui com a idade, elevar seus níveis poderia, em tese, melhorar funções associadas ao envelhecimento.

Mas essa hipótese ainda precisa ser separada das promessas comerciais. Ter participação em vias celulares não significa, automaticamente, produzir rejuvenescimento em humanos. Uma coisa é alterar um marcador biológico. Outra é demonstrar benefício clínico real, duradouro e seguro. 

O que é NMN

O NMN, sigla para mononucleotídeo de nicotinamida, é um precursor do NAD+. Isso significa que o organismo pode utilizar o NMN como uma etapa intermediária para produzir NAD+.

Por esse motivo, o NMN passou a ser vendido como uma forma de aumentar os níveis de NAD+ no corpo. A proposta ganhou força porque a ingestão direta de NAD+ pode não ser a estratégia mais eficiente, já que a molécula apresenta limitações de absorção e aproveitamento.

Em estudos com animais, o NMN demonstrou resultados promissores em áreas como metabolismo energético, função vascular, sensibilidade à insulina, inflamação e desempenho físico. Esses achados ajudaram a impulsionar o interesse científico e comercial pelo composto.

O desafio é que resultados em animais não podem ser transferidos diretamente para humanos. Estudos pré-clínicos ajudam a formular hipóteses, mas não bastam para afirmar que um suplemento retarda o envelhecimento, previne doenças ou melhora a longevidade em pessoas.

O que a ciência mostra até agora

 A literatura científica indica que precursores de NAD+, como o NMN, podem elevar níveis de NAD+ ou marcadores relacionados em modelos experimentais e, em alguns estudos humanos, gerar alterações metabólicas mensuráveis. Esse é um dos achados que sustenta o interesse crescente pelo tema.

Parte dessa base vem de estudos que investigam o próprio metabolismo do NAD+. A revisão “NAD+ Metabolism and Regulation: Lessons From Yeast”, por exemplo, descreve o NAD+ como um metabólito essencial envolvido em diferentes processos celulares e destaca que suas vias de biossíntese são amplamente conservadas entre organismos, de bactérias a humanos.

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Outro trabalho, “NAD+-Dependent Deacetylase Hst1p Controls Biosynthesis and Cellular NAD+ Levels in Saccharomyces cerevisiae”, mostra como os níveis celulares de NAD+ podem ser regulados por mecanismos internos de controle, reforçando que essa molécula participa de uma rede biológica complexa, e não de uma ação simples ou isolada.

No caso do NMN, estudos pré-clínicos também ajudam a explicar por que ele ganhou espaço nas discussões sobre metabolismo e envelhecimento. O artigo “Nicotinamide mononucleotide induces lipolysis by regulating ATGL expression via the SIRT1-AMPK axis in adipocytes” investigou a ação do NMN em adipócitos e relacionou o composto a vias metabólicas associadas à lipólise.

Já o estudo “Cardioprotection by nicotinamide mononucleotide (NMN): Involvement of glycolysis and acidic pH” avaliou efeitos do NMN em modelo experimental de lesão cardíaca por isquemia e reperfusão, sugerindo possível efeito cardioprotetor em condições laboratoriais.

Esses trabalhos ajudam a sustentar a plausibilidade biológica do tema. Eles mostram que NAD+ e NMN participam de processos relevantes para metabolismo, energia celular, resposta ao estresse e manutenção de funções biológicas. Mas também deixam claro que plausibilidade não é o mesmo que comprovação clínica de longevidade em humanos.

Alguns estudos clínicos pequenos sugerem possíveis efeitos metabólicos em grupos específicos, como melhora discreta de sensibilidade à insulina, parâmetros cardiovasculares ou desempenho físico. Mesmo assim, os ensaios disponíveis costumam envolver poucos participantes, curta duração e desfechos intermediários.

Ou seja, muitos estudos medem marcadores biológicos, mas não conseguem responder se o suplemento reduz mortalidade, evita doenças ou prolonga a vida com saúde. Quando o desfecho é envelhecimento, a dificuldade aumenta, porque envelhecer é um processo longo, multifatorial e influenciado por genética, ambiente, alimentação, sono, atividade física, doenças, medicamentos e condições sociais.

Estudos também apontam limites e alertas

Nem toda evidência sobre precursores de NAD+ é positiva ou conclusiva. Alguns trabalhos laboratoriais mostram que alterar vias relacionadas ao NAD+ pode produzir efeitos complexos, dependendo do tipo celular, da dose, do contexto metabólico e da condição do organismo.

Um exemplo é o artigo “The NAD+ precursor NMN activates dSarm to trigger axon degeneration in Drosophila”, que investigou o papel do NMN em modelo de mosca-da-fruta e associou o composto à ativação de uma via ligada à degeneração axonal. O estudo não significa que o NMN cause esse efeito em humanos, mas reforça que moléculas envolvidas em vias celulares profundas não devem ser tratadas como neutras ou automaticamente seguras em qualquer contexto.

Outro ponto vem de estudos de permeabilidade, como “Permeation of Nicotinamide Mononucleotide (NMN) in an Artificial Membrane as a Cosmetic Skin Permeability Test Model”, que mostram como ainda há perguntas técnicas sobre absorção, passagem por barreiras biológicas e formas de entrega do NMN, inclusive em modelos voltados à pele.

Esse conjunto de evidências é importante para o farmacêutico. Quando um suplemento atua sobre metabolismo energético, enzimas dependentes de NAD+, vias como SIRT1 e AMPK, lipólise, resposta ao estresse e manutenção celular, ele não deve ser tratado como produto inofensivo apenas porque é vendido sem prescrição.

Também faltam respostas claras sobre dose ideal, duração do uso, população que mais se beneficiaria, possíveis interações, efeitos em pessoas com câncer, doenças crônicas, gestantes, lactantes, idosos frágeis ou pacientes em polifarmácia.

Por isso, a leitura científica precisa ser equilibrada. Os estudos mostram que NAD+ e NMN são temas legítimos de pesquisa, mas ainda não autorizam promessas de rejuvenescimento, cura do envelhecimento ou prolongamento garantido da vida humana.

Quem deve ter mais cautela        

Não existe, até o momento, uma recomendação universal para uso de NMN ou estratégias de aumento de NAD+ com finalidade antienvelhecimento. Pessoas saudáveis que buscam longevidade devem entender que hábitos básicos continuam tendo evidência mais sólida: atividade física regular, alimentação equilibrada, sono adequado, controle do estresse, não fumar, limitar álcool e tratar doenças crônicas.

Pacientes com doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, câncer, doenças hepáticas, doenças renais ou condições neurológicas devem ter ainda mais cautela antes de usar esses produtos. O mesmo vale para gestantes, lactantes, idosos frágeis e pessoas que utilizam medicamentos contínuos.

A preocupação não é apenas com o NMN em si, mas com o contexto do paciente. Suplementos podem interagir com medicamentos, mascarar sintomas, gerar falsa sensação de segurança ou estimular abandono de medidas já comprovadas.

Por isso, o uso deve ser individualizado. O paciente que chega à farmácia pedindo NAD+ ou NMN precisa ser orientado sobre o que se sabe, o que ainda não se sabe e por que promessas de “rejuvenescimento” devem ser vistas com cuidado.

Farmacêutico precisa separar ciência de promessa

A popularização do NAD+ e do NMN mostra como o mercado de suplementos está cada vez mais conectado à linguagem científica. Termos como mitocôndria, reparo celular, sirtuínas, metabolismo energético e longevidade aparecem em propagandas, rótulos e redes sociais.

Esse vocabulário pode impressionar o consumidor, mas também pode confundir. Um mecanismo plausível não é o mesmo que benefício clínico comprovado. Um estudo em células não é o mesmo que um ensaio em humanos. Um aumento de NAD+ no sangue não significa, necessariamente, que o paciente ficará mais jovem.

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É nesse espaço que o farmacêutico se torna essencial. Ele é o profissional capaz de traduzir a ciência para o paciente, avaliar riscos, orientar sobre uso racional, identificar promessas exageradas e indicar quando a suplementação não faz sentido ou exige avaliação médica.

A farmácia é um dos principais pontos de contato entre a população e o mercado de suplementos. Por isso, o farmacêutico precisa atuar como filtro técnico, especialmente em temas que misturam ciência emergente, marketing agressivo e desejo humano por soluções rápidas.

Uso racional também vale para suplementos

Quando se fala em uso racional, muitos pensam apenas em medicamentos. Mas suplementos também exigem orientação. Eles podem ter doses inadequadas, promessas exageradas, interações, baixa qualidade de fabricação, custo elevado e benefícios incertos.

No caso de NAD+ e NMN, a orientação deve ser equilibrada. Não se trata de negar a importância científica dessas moléculas. O metabolismo de NAD+ é uma área legítima de pesquisa e pode gerar aplicações futuras relevantes. O problema é transformar hipóteses promissoras em promessas comerciais definitivas.

O farmacêutico pode ajudar o paciente a entender que suplementação não substitui acompanhamento clínico, tratamento de doenças, alimentação adequada, exercício físico e sono de qualidade. Também pode orientar sobre procedência, rotulagem, dose, tempo de uso e necessidade de acompanhamento.

 A maior contribuição, nesse caso, talvez seja impedir que o paciente compre uma expectativa irreal. Em longevidade, a ciência avança, mas ainda não existe atalho seguro e comprovado para retardar o envelhecimento humano por meio de uma cápsula.

Qualificação fortalece a orientação em nutracêuticos

A busca por alimentos funcionais, nutrientes isolados e suplementos voltados à manutenção do bem-estar físico e mental cresce ano após ano. Esse movimento amplia a responsabilidade do farmacêutico na orientação da população, especialmente quando produtos são divulgados como soluções para envelhecimento, metabolismo, energia, imunidade ou prevenção de doenças.

Para atuar com segurança, o farmacêutico precisa compreender nutracêutica clínica, fitoterapia, nutrição funcional, fisiologia, doenças crônicas, interações, limites da evidência científica e comunicação com o paciente.

A pós-graduação em Nutracêuticos e Suplementação na Prática Clínica Farmacêutica do ICTQ se conecta diretamente a essa necessidade. A formação oferece ferramentas para atuação clínica com nutracêuticos, fitoterapia e nutrição funcional esportiva, aplicadas ao tratamento e prevenção de doenças crônicas como síndrome metabólica, diabetes e obesidade.

No caso de produtos como NAD+ e NMN, a qualificação é decisiva para separar promessa de evidência. O farmacêutico preparado consegue orientar melhor, evitar falsas expectativas, promover uso racional e proteger o paciente de soluções milagrosas que ainda não foram confirmadas pela ciência.

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