Professores do ICTQ explicam investigação sobre reações graves à vacina da dengue do Butantan

Professores do ICTQ explicam investigação sobre reações graves à vacina da dengue do Butantan

A suspensão temporária da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan levantou dúvidas entre profissionais de saúde e população. A medida foi anunciada pelo Ministério da Saúde após a identificação de 42 casos com sinais de alerta compatíveis com dengue grave entre aproximadamente 500 mil pessoas vacinadas, incluindo três casos graves e dois óbitos ainda em investigação.

O caso exige atenção redobrada do farmacêutico clínico porque pessoas vacinadas podem procurar primeiro a farmácia em busca de orientação. Sintomas como febre, dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, tontura, sonolência excessiva, sinais de desidratação e piora do estado geral precisam ser reconhecidos como alertas para encaminhamento imediato ao serviço de saúde.

A discussão ocorre justamente no Dia Nacional da Imunização, celebrado em 9 de junho. A data reforça a importância das vacinas para a saúde pública, mas também mostra que vacinação segura depende de monitoramento, orientação profissional e sistemas capazes de investigar rapidamente sinais inesperados.

Em meio a informações espalhadas pela internet, o ICTQ ouviu especialistas em vacinas para esclarecer o que se sabe até agora, quais são os próximos passos e como o farmacêutico clínico pode atuar diante das dúvidas que chegam à farmácia.

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O que aconteceu com a vacina do Butantan?

O Ministério da Saúde anunciou, na segunda-feira, 8 de junho, a descontinuação temporária da atual estratégia de vacinação com a Butantan-DV, imunizante contra a dengue desenvolvido pelo Instituto Butantan.

A medida foi adotada por precaução após o sistema de farmacovigilância identificar 42 casos com sinais de alerta, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos. Esses eventos correspondem a aproximadamente 0,008% do total de cerca de 500 mil doses aplicadas até 30 de maio.

Entre os 42 casos, três foram classificados como graves. Uma mulher de 39 anos apresentou febre, dores musculares e náuseas seis dias após receber a vacina, evoluiu para quadro compatível com dengue grave, precisou de internação em UTI e recebeu alta.

Os outros dois casos evoluíram para óbito e seguem em investigação. Um deles envolveu uma mulher de 48 anos que desenvolveu sintomas de dengue grave com comprometimento neurológico, descrito como meningoencefalite, 19 dias após a vacinação. O outro envolveu um homem de 58 anos que apresentou febre cinco dias após receber o imunizante e evoluiu para dengue grave com choque refratário.

Até o momento, o Ministério da Saúde afirma que não há comprovação de relação causal entre a vacina e os casos graves. A proximidade temporal entre vacinação e sintomas é considerada um sinal de alerta, mas não prova que o imunizante tenha causado os eventos.

Farmacovigilância identificou o sinal de alerta

O Dr. Ismael Rosa, Diretor Acadêmico do ICTQ e Sócio e Diretor Clínico da clínica de vacinação Dr. Vaccinum, explica que a suspensão foi uma medida preventiva adotada após a identificação, pelo Sistema de Farmacovigilância, dos 42 casos com sinais de alerta compatíveis com dengue grave.

“Até o momento, não existe comprovação de que a vacina tenha causado esses eventos. A medida foi tomada justamente para permitir uma investigação profunda”, afirma.

Segundo ele, os eventos observados não haviam aparecido durante os estudos clínicos. Por isso, quando um sinal inesperado surge depois da utilização em larga escala, os protocolos de segurança determinam avaliação rigorosa.

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Dr. Ismael destaca que os principais sinais observados foram dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, sonolência excessiva e outros sinais de agravamento clínico que exigem avaliação médica imediata.

“Farmacovigilância não significa que a vacina é insegura. Significa que os sistemas de monitoramento estão funcionando para proteger a população e garantir decisões baseadas em evidências científicas”, afirma.

O que está sendo investigado

A investigação envolve o Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Instituto Butantan, especialistas, serviços de saúde, vigilâncias locais e instâncias técnicas como o Comitê Interinstitucional de Farmacovigilância de Vacinas e Outros Imunobiológicos e a Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização.

 Entre os pontos a serem avaliados estão histórico clínico dos pacientes, doenças preexistentes, fatores de risco individuais, causas alternativas, possíveis desvios de qualidade, falhas de armazenamento, transporte, cadeia de frio e eventuais erros de imunização.

A Anvisa também deve instituir um painel de especialistas, com representantes do meio acadêmico e da comunidade científica, para aprofundar a investigação epidemiológica e técnica sobre o caso.

O Ministério da Saúde informou que ainda não há prazo definido para a conclusão da investigação. Representantes da pasta afirmaram que cobram rapidez nas análises, mas que o processo seguirá os protocolos de segurança e farmacovigilância adotados pelo Sistema Único de Saúde.

Enquanto isso, as doses já distribuídas não devem ser descartadas. Elas permanecerão armazenadas na Rede de Frio do SUS até nova orientação das autoridades sanitárias.

Quem já tomou a vacina deve fazer o quê?

A principal orientação para quem recebeu a vacina do Butantan é observar o estado de saúde por até 21 dias após a aplicação. Caso apareçam sintomas como febre, dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, tontura, sangramentos, sonolência intensa, irritabilidade, sinais de desidratação ou piora do estado geral, a pessoa deve procurar atendimento médico imediatamente.

O professor do ICTQ, Dr. Clenildo Campos Maciel, farmacêutico clínico, vacinador, mestre e doutorando em Patologia, reforça que o momento exige atenção, mas de forma equilibrada.

“Para quem já recebeu o imunizante, o momento exige atenção, mas de forma equilibrada. Orientamos que os vacinados observem qualquer reação incomum no período de até 21 dias após a aplicação. Sinais como dores abdominais intensas, vômitos persistentes ou sangramentos devem ser avaliados por um médico imediatamente”, afirma.

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Segundo o Dr. Clenildo, quem já passou desse período pode ficar mais tranquilo, pois o intervalo de maior atenção já foi superado.

“Vale ressaltar que os eventos notificados ainda estão sob rigorosa investigação pelas autoridades de saúde e nenhum vínculo causal com a vacina foi comprovado até o momento. A ciência avança com cautela, e proteger vidas através da vacinação segue sendo a nossa maior prioridade”, diz.

A vacina continua eficaz?

O Ministério da Saúde afirma que a suspensão temporária não invalida a eficácia da vacina nem altera as evidências de proteção observadas até o momento. Quem já recebeu o imunizante permanece protegido contra os quatro sorotipos da dengue, segundo a pasta.

A Butantan-DV foi aprovada após estudos clínicos de fase 1, 2 e 3, com mais de 11 mil voluntários vacinados e acompanhamento de parte dos participantes por cinco anos. Os estudos apontaram eficácia geral de 65% contra a doença e de 80,5% contra casos graves, segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde.

O Instituto Butantan, em nota, também citou dados de eficácia global de 79,6% e 89% contra dengue grave em estudo publicado em revista científica internacional. O instituto afirmou ainda que, nos três municípios onde houve vacinação em massa da população, Botucatu, em São Paulo, Maranguape, no Ceará, e Nova Lima, em Minas Gerais, o acompanhamento de farmacovigilância foi positivo, sem casos importantes de reação adversa na população.

A diferença entre eficácia e segurança pós-uso precisa ser bem compreendida. Uma vacina pode apresentar boa eficácia em estudos e, mesmo assim, seguir sob monitoramento contínuo depois de chegar à população. Esse acompanhamento faz parte da segurança sanitária.

Qdenga segue disponível para público elegível

A suspensão envolve a vacina contra dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. O Ministério da Saúde informou que a decisão não afeta a Qdenga, produzida pelo laboratório Takeda, que segue sendo ofertada pelo SUS para o público elegível e também está disponível em clínicas privadas conforme indicação.

O Dr. Ismael Rosa lembra que a vacinação continua sendo uma ferramenta importante de proteção. “Ainda existe outra opção de vacina que está disponível nas clínicas privadas e também no SUS. É a Qdenga, do laboratório Takeda, que vem sendo utilizada no Brasil há mais de três anos. Portanto, não deixe de se proteger com a vacinação”, afirma.

A orientação reforça a necessidade de avaliação individual e informação correta. Pessoas que têm dúvidas sobre vacinação contra dengue devem buscar orientação profissional, especialmente quando fazem parte de grupos elegíveis ou apresentam condições clínicas específicas.          

Farmacêutico clínico deve orientar e notificar

Em muitos casos, o farmacêutico clínico é o primeiro profissional procurado por pessoas com dúvidas após a vacinação. Também pode receber pacientes com sintomas iniciais, insegurança, medo ou dificuldade para entender o que significa a suspensão temporária.

O papel desse profissional envolve orientar sobre sinais de alerta, explicar que a relação causal ainda não foi comprovada, reforçar quando procurar atendimento médico e evitar tanto o alarmismo quanto a banalização dos sintomas.

Dr. Ismael Rosa destaca que o farmacêutico clínico contribui orientando pacientes sobre possíveis eventos adversos, identificando sinais de alerta, realizando notificações nos sistemas oficiais de vigilância, como o VigiMed da Anvisa, e colaborando com equipes multiprofissionais na avaliação da segurança dos imunizantes.

Esse ponto é essencial. Notificar eventos suspeitos não significa afirmar que a vacina causou o problema. Significa alimentar o sistema de vigilância com dados que ajudam autoridades a investigar, comparar padrões e tomar decisões com base em evidências.

Informação correta protege a população

Em momentos de grande circulação de informações, o farmacêutico clínico precisa atuar como referência técnica. Pacientes podem chegar à farmácia com medo de vacinas, dúvidas sobre sintomas ou interpretação equivocada de notícias nas redes sociais.

A orientação deve ser clara: quem recebeu a vacina deve observar sintomas por até 21 dias; sinais de alarme exigem atendimento médico; quem passou desse período pode ficar mais tranquilo; os casos continuam sob investigação; e a vacinação permanece uma das principais estratégias de proteção coletiva.

O Dr. Clenildo Campos Maciel resume essa postura ao lembrar que processos de interrupção temporária são prova de que a farmacovigilância no Brasil funciona com rigor para garantir a segurança da população.

“Como farmacêutico clínico e vacinador, vejo de perto o impacto das vacinas na saúde da nossa comunidade e entendo que as notícias recentes sobre a suspensão temporária da vacina da dengue do Butantan possam gerar dúvidas. No entanto, é preciso reforçar que a vacinação continua sendo a forma mais eficaz e segura de imunização”, afirma.

Para ele, proteger vidas por meio da vacinação segue sendo prioridade, mas isso exige cautela científica, orientação responsável e acompanhamento adequado dos eventos notificados.

Capacitação fortalece a atuação clínica

A suspensão temporária da vacina do Butantan contra dengue mostra que o farmacêutico clínico ocupa uma posição estratégica na proteção da população. Ele orienta, identifica sinais de alerta, encaminha pacientes, esclarece dúvidas, contribui com notificações e ajuda a sustentar a confiança nas decisões baseadas em ciência.

Essa atuação exige preparo. O profissional precisa compreender imunização, eventos adversos, farmacovigilância, comunicação com o paciente, uso racional de medicamentos e integração com a equipe multiprofissional.

A pós-graduação em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica do ICTQ oferece ao farmacêutico conhecimentos para atuar com mais segurança em situações como essa, nas quais a população precisa de informação técnica, acolhimento e orientação clínica qualificada.

Em uma data como o Dia Nacional da Imunização, o caso reforça que vacinas salvam vidas, mas a segurança vacinal depende também de profissionais preparados para monitorar, orientar e agir quando sinais de alerta aparecem.

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