A aprovação do Ozivy, medicamento à base de semaglutida desenvolvido pela EMS, deve movimentar o mercado de tratamentos para diabetes tipo 2 e obesidade no Brasil. A expectativa é que o produto chegue às farmácias nos próximos 30 dias, com preço cerca de 30% menor em relação ao medicamento de referência.
Para o farmacêutico, a chegada de uma alternativa mais acessível pode aumentar significativamente a demanda no atendimento. Mais pacientes devem buscar informações sobre indicação, forma de uso, conservação, efeitos adversos, adesão ao tratamento e diferenças entre produtos à base de semaglutida, exigindo preparo técnico para orientar com segurança.
O movimento ocorre em um mercado já aquecido. Medicamentos análogos de GLP-1 ganharam grande visibilidade nos últimos anos pelo uso no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, mas o alto custo ainda limita o acesso de muitos pacientes. Com a entrada de uma opção nacional mais barata, a tendência é que a procura cresça, tanto por prescrição médica quanto por dúvidas no ponto de atendimento.
A avaliação positiva também chegou ao varejo farmacêutico. Em entrevista ao portal Exame, Renato Raduan, CEO da RD Saúde, dona das redes Raia e Drogasil, afirmou que a chegada do produto pode representar uma virada para a saúde pública brasileira e para o acesso a tratamentos antes restritos a uma parcela menor da população.
CEO da RD Saúde vê impacto positivo no varejo
A aprovação do Ozivy pela Anvisa foi recebida com otimismo pela RD Saúde, maior rede de farmácias do País. Para Renato Raduan, o principal gargalo das canetas de semaglutida sempre foi o preço elevado, fator que restringiu o acesso de muitos pacientes ao tratamento.
Na avaliação do executivo, a chegada de um produto nacional mais barato deve ampliar o consumo e movimentar o varejo farmacêutico. Ele citou experiências observadas em outros mercados, como Argentina e Rússia, onde a redução do preço médio teria sido acompanhada por forte aumento no volume de vendas.
A lógica é simples: quando o preço cai, mais pessoas conseguem acessar o tratamento. Raduan resumiu esse comportamento ao afirmar que, em mercados semelhantes, o preço médio pode cair pela metade, enquanto o volume mais do que dobra. Para as farmácias, isso significa maior demanda. Para o sistema de saúde, pode significar mais pacientes em tratamento regular.
O Ozivy foi desenvolvido integralmente pela EMS, com tecnologia e produção nacionais. A farmacêutica informou que o produto deve chegar ao mercado com preço cerca de 30% menor que o Ozempic. A empresa também projeta condições iniciais mais favoráveis para o começo do tratamento, embora ainda não tenha divulgado o preço final ao consumidor.
Ozivy deve chegar às prateleiras em até 30 dias
A EMS anunciou a aprovação do Ozivy pela Anvisa em 26 de maio. O medicamento tem como princípio ativo a semaglutida, mesma substância presente em produtos já conhecidos no mercado, como Ozempic e Wegovy, utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, conforme indicação médica.
A expectativa da empresa é que o Ozivy esteja disponível nas farmácias em até 30 dias após a aprovação. O produto será comercializado em quatro apresentações: 0,25 mg, 0,5 mg, 1 mg em caneta única e 1 mg em embalagem com duas canetas.
A apresentação com duas canetas foi pensada para favorecer a continuidade do tratamento. Segundo a EMS, a dose de 1 mg representa uma parte expressiva do mercado atual de semaglutida no Brasil e deve ser o principal foco comercial do lançamento.
A primeira leva prevista é de 350 mil unidades, com meta de 1,2 milhão de unidades vendidas no primeiro ano. A companhia projeta faturamento superior a R$ 500 milhões nesse período. Para apresentar o produto à classe médica, mais de dois mil representantes médicos devem ser mobilizados antes mesmo da chegada às prateleiras.
Produto nacional mira mercado bilionário
O lançamento é resultado de um investimento de longo prazo. A EMS informou ter aplicado R$ 1,2 bilhão ao longo de dez anos no desenvolvimento de uma plataforma proprietária de peptídeos, com produção nacional em Hortolândia, no interior de São Paulo.
A fábrica conta com duas linhas produtivas, cada uma com capacidade de 20 milhões de canetas por ano, totalizando 40 milhões de unidades anuais. A empresa também prevê exportações para mercados como Estados Unidos e Europa.
O mercado brasileiro de injetáveis para obesidade e diabetes já ultrapassa R$ 5,6 bilhões ao ano, segundo informações divulgadas pela EMS. Com a entrada de uma opção nacional, a expectativa é ampliar a concorrência e reduzir barreiras de acesso.
Outro ponto destacado pela empresa e pelo CEO da RD Saúde é o impacto sobre o mercado irregular. A alta procura por medicamentos de emagrecimento abriu espaço para produtos importados sem autorização, substâncias vendidas em redes sociais e alternativas sem garantia adequada de origem, conservação ou controle sanitário.
Nesse ponto, a chegada de um produto regularizado pode contribuir para deslocar parte da demanda para canais formais. Para o farmacêutico, isso aumenta a responsabilidade no atendimento: orientar sobre riscos de produtos clandestinos, reforçar a necessidade de prescrição e esclarecer que medicamentos injetáveis exigem conservação adequada, procedência conhecida e acompanhamento profissional.
Demanda maior exige acompanhamento farmacêutico
A ampliação do acesso a medicamentos à base de semaglutida tende a aumentar o número de pacientes em tratamento. Isso pode trazer benefícios, mas também exige cuidado. Análogos de GLP-1 não são produtos de uso banal. Eles têm indicações, contraindicações, efeitos adversos, esquema de dose, cuidados de armazenamento e necessidade de acompanhamento.
Entre as dúvidas mais comuns estão forma correta de aplicação, horários, progressão de dose, manejo de náuseas, vômitos, diarreia ou constipação, conservação da caneta, esquecimento de dose e compatibilidade com outros medicamentos usados por pacientes diabéticos, hipertensos ou com síndrome metabólica.
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Também há um desafio relacionado à adesão. Muitos pacientes iniciam o tratamento com grande expectativa, especialmente quando o objetivo envolve perda de peso. Sem orientação adequada, podem interromper o uso diante de efeitos adversos, usar doses incorretas, tentar acelerar resultados ou associar o medicamento a práticas inseguras.
O farmacêutico tem papel importante nessa jornada. Ele pode reforçar o uso racional, orientar sobre conservação, identificar sinais de alerta, acompanhar a adesão, esclarecer limites do tratamento e encaminhar o paciente quando necessário. Em obesidade, diabetes e síndrome metabólica, o cuidado não depende apenas do medicamento, mas de acompanhamento contínuo.
Mercado vai exigir mais preparo clínico
A chegada do Ozivy mostra que o mercado de análogos de GLP-1 deve seguir em expansão. Com mais concorrência, maior visibilidade e possível redução de preço, a tendência é que mais pacientes cheguem às farmácias com prescrições, dúvidas e expectativas sobre o tratamento.
Esse movimento exige farmacêuticos preparados para atuar além da dispensação. O profissional precisa compreender obesidade, diabetes tipo 2, resistência à insulina, síndrome metabólica, risco cardiovascular, adesão terapêutica, efeitos adversos e acompanhamento farmacoterapêutico.
A pós-graduação em Farmácia Clínica de Endocrinologia e Metabologia do ICTQ se conecta diretamente a essa demanda. A formação prepara o farmacêutico para atuar com mais segurança no cuidado de pacientes com doenças metabólicas, ampliando sua capacidade de avaliação, orientação e acompanhamento.
O programa oferece ao farmacêutico conhecimentos e ferramentas para atuar no manejo de pacientes obesos, diabéticos e/ou em uso de análogos de GLP-1.
A entrada de um novo produto à base de semaglutida no mercado não muda apenas a concorrência entre medicamentos. Ela também muda a rotina do farmacêutico, que precisará lidar com mais pacientes, mais dúvidas e maior responsabilidade clínica no acompanhamento desses tratamentos.
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