Muito se fala sobre o aumento de pessoas ansiosas, deprimidas e emocionalmente esgotadas. Para muitos especialistas, depressão e ansiedade já estão entre os grandes problemas de saúde do século e, no Brasil, esse cenário é ainda mais preocupante, o país enfrenta uma crise aguda de saúde mental, com transtornos que afetam milhões de brasileiros, impactam relações familiares, reduzem produtividade, aumentam afastamentos laborais e levam muitos pacientes a procurarem primeiro a farmácia em busca de algo para dormir, “acalmar”, melhorar a energia, suplementar vitaminas ou tirar dúvidas sobre antidepressivos e ansiolíticos.
Mas essa realidade também expõe um desafio para a farmácia brasileira, boa parte dos farmacêuticos não estão plenamente preparados para lidar com esse tipo de demanda. A graduação oferece uma base importante, mas dificilmente forma o profissional pronto para conduzir um acompanhamento farmacoterapêutico completo de pacientes com queixas emocionais, uso de psicofármacos e sintomas inespecíficos que podem se sobrepor.
Nesse ponto que o farmacêutico clínico precisa ampliar o olhar. Sintomas como cansaço constante, irritabilidade, desânimo, dificuldade de concentração, sensação de mente embaçada e alterações de humor nem sempre estão ligados apenas ao sofrimento psíquico. Eles também podem envolver deficiências nutricionais, uso prolongado de determinados medicamentos, dietas restritivas e alterações metabólicas. Dentre essas deficiências, destaca-se a de vitamina B12.
A relação entre vitamina B12 e saúde mental
A vitamina B12, também chamada de cobalamina, é essencial para o funcionamento do sistema nervoso, formação de células sanguíneas, síntese de DNA e manutenção da bainha de mielina, estrutura que protege os neurônios e favorece a condução adequada dos impulsos nervosos.
Quando há deficiência, o organismo pode apresentar manifestações hematológicas, neurológicas e psiquiátricas. Os sinais mais conhecidos incluem anemia megaloblástica, fadiga, fraqueza, formigamentos, dormência, alteração de marcha e déficit cognitivo. Mas a literatura científica também aponta associação entre baixos níveis de B12 e sintomas como depressão, ansiedade, irritabilidade, perda de memória e piora da qualidade de vida.
Um artigo sobre micronutrientes e saúde mental, publicado pela Annals of Clinical Nutrition and Metabolism, destaca que a deficiência de vitamina B12 pode causar disfunção neurológica, transtornos do humor, declínio cognitivo e sintomas psicóticos, especialmente em idosos. O estudo também aponta que a B12 participa da formação da mielina, da síntese de neurotransmissores e da prevenção de processos neurodegenerativos associados à homocisteína.
Segundo o artigo: “A vitamina B12 é de particular interesse, pois sua deficiência está associada não apenas à depressão, mas também à neurite periférica, disfunção cognitiva e sintomas psicóticos...”
Isso não significa que toda depressão ou ansiedade seja causada por falta de B12. O ponto é que, em pacientes com sintomas persistentes, fatores de risco ou baixa resposta ao tratamento, a deficiência deve entrar no raciocínio clínico e no acompanhamento farmacoterapêutico.
O que os estudos mostram
A relação entre vitamina B12, depressão e ansiedade, é investigada há décadas. Um estudo conduzido por pesquisadores do Departamento de Psiquiatria e Psicologia da Universidade Médica de Pleven, com pacientes que apresentavam depressão e ansiedade em comparação a controles saudáveis, identificou níveis médios de B12 mais baixos no grupo de pacientes. Mais de 50% desses pacientes apresentavam níveis inferiores a 200 pg/mL, e mais de 60% estavam abaixo de 250 pg/mL, concentração considerada necessária para processos bioquímicos adequados.
O mesmo estudo observou correlação entre níveis de vitamina B12 e escores psicométricos de ansiedade e depressão, sugerindo que menores concentrações da vitamina estavam associadas a maior intensidade dos sintomas. Os autores concluíram que o nível sérico de B12 tem papel importante no desenvolvimento e na manifestação clínica de depressão e ansiedade.
Outro trabalho, publicado como revisão narrativa sobre vitamina B12 e regulação emocional nos transtornos de ansiedade, aponta que a B12 atua como cofator na conversão da homocisteína em metionina. Esse processo participa da formação de S-adenosilmetionina, molécula importante para a metilação de compostos envolvidos na síntese de neurotransmissores como serotonina, dopamina, norepinefrina e melatonina.
A revisão também destaca que a deficiência de B12 pode elevar a homocisteína, considerada neurotóxica em concentrações elevadas, afetando função neuronal, síntese e equilíbrio de neurotransmissores. Como consequência, podem surgir sintomas neurológicos e psiquiátricos, incluindo depressão, ansiedade e déficits cognitivos.
Quando a deficiência pode ser confundida com ansiedade
A deficiência de B12 pode passar despercebida porque seus sintomas são, muitas vezes, inespecíficos. Irritabilidade, fadiga, palpitações, dificuldade de concentração, tontura, sensação de fraqueza e mente embaçada podem ser confundidas com ansiedade, estresse ou exaustão.
Muitos pacientes tratam ansiedade sem sucesso antes de descobrir que os sintomas estavam relacionados à deficiência de B12. Especialistas reforçam que a vitamina pode afetar diretamente o sistema nervoso e provocar sintomas neuropsiquiátricos, incluindo depressão, ansiedade, psicose, demência e delírio.
Alguns sinais físicos devem acender alerta, como formigamento nas mãos e nos pés, alterações de equilíbrio, cansaço extremo, falhas de memória, fraqueza muscular, dificuldade para caminhar e alterações de sensibilidade. A deficiência prolongada pode gerar danos neurológicos importantes, por isso sintomas persistentes, especialmente quando associados a sinais físicos, exigem investigação.
O farmacêutico não diagnostica deficiência de B12, depressão ou ansiedade. Mas pode identificar sinais de alerta, reconhecer fatores de risco, orientar sobre a necessidade de avaliação laboratorial e encaminhar o paciente para investigação adequada.
Suplementação exige responsabilidade
Com o crescimento do mercado de suplementos, muitos pacientes procuram vitamina B12 por conta própria, influenciados por redes sociais ou pela promessa de mais energia, foco, humor e disposição. Esse comportamento exige cuidado.
A vitamina B12 pode ser necessária quando há deficiência, risco aumentado ou indicação adequada. Porém, a suplementação não deve ser tratada como solução genérica para depressão, ansiedade ou cansaço. Também não substitui avaliação clínica, acompanhamento profissional, tratamento farmacológico ou psicoterapia quando necessários.
O farmacêutico deve orientar sobre formas disponíveis, uso correto, segurança, possíveis interações, limites da suplementação e necessidade de acompanhamento. Em alguns casos, a suplementação oral pode ser suficiente. Em outros, como em situações de má absorção importante, cirurgia bariátrica ou deficiência significativa, pode ser necessária outra via de reposição e monitoramento mais rigoroso.
A orientação responsável evita dois extremos: ignorar a deficiência de B12 como possível fator associado aos sintomas ou transformar a vitamina em promessa fácil para problemas complexos de saúde mental.
O papel do farmacêutico no cuidado ao paciente
Durante sua rotina, o farmacêutico encontrará pacientes em diferentes situações. Alguns chegam com prescrição de antidepressivos, ansiolíticos ou estabilizadores do humor. Outros buscam suplementos, produtos naturais, medicamentos para dormir ou algo para melhorar a disposição.
O papel do farmacêutico é acolher, orientar e acompanhar com responsabilidade. Isso inclui explicar o uso correto dos medicamentos prescritos, reforçar adesão, alertar sobre tempo de início de ação de antidepressivos, orientar sobre efeitos adversos, prevenir interações e desencorajar interrupções abruptas.
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No caso da vitamina B12, o farmacêutico pode investigar fatores de risco durante o atendimento. O paciente é vegano ou vegetariano? Usa metformina há muitos anos? Faz uso crônico de omeprazol? Fez cirurgia bariátrica? Tem formigamentos, dormência, fadiga persistente ou falhas de memória? Já realizou exames recentes? Está usando suplementos sem orientação?
Essas perguntas ajudam a organizar o cuidado farmacêutico. Quando há suspeita de deficiência, o paciente deve ser orientado a buscar avaliação e exames adequados. Quando há sintomas graves de depressão, risco de autoagressão, ideação suicida, confusão mental, sintomas neurológicos progressivos ou incapacidade funcional, o encaminhamento deve ser imediato.
O farmacêutico não substitui o cuidado especializado, mas pode ser uma ponte fundamental entre o paciente e o tratamento correto.
Qualificação é essencial para orientar com segurança
A relação entre deficiência de vitamina B12 com depressão e ansiedade, mostra que o farmacêutico clínico precisa estar cada vez mais preparado. O paciente espera respostas, o mercado exige atualização e a prática diária apresenta situações complexas envolvendo medicamentos, suplementos, sintomas inespecíficos, transtornos mentais e múltiplas comorbidades.
A Pós-Graduação em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica do ICTQ prepara o farmacêutico para esse cenário, desenvolvendo competências em Atenção Farmacêutica em Psicofármacos, que aprofunda o cuidado com pacientes em uso de medicamentos para transtornos mentais, e Prescrição de Suplementos e Alimentos Funcionais e em Formato Farmacêutico, que prepara o farmacêutico para orientar com segurança sobre suplementação.
Em um cenário no qual ansiedade e depressão crescem, e em que deficiências nutricionais podem contribuir para sintomas neuropsiquiátricos, o farmacêutico qualificado se torna essencial. Ele ajuda a identificar riscos, orientar suplementação de forma responsável, acompanhar pacientes em uso de psicofármacos, combater a automedicação e transformar informação científica em cuidado real.
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