O sarampo voltou a acender um alerta entre profissionais de saúde no Brasil. Mesmo com cobertura vacinal em recuperação nos últimos anos, o país ainda não atingiu a meta de 95% recomendada para controle da doença, o que mantém o risco de reintrodução ativa do vírus.
Os dados mais recentes mostram registros de casos importados em 2025 e 2026, reforçando um cenário que já levou o país a perder, no passado, o certificado de eliminação da doença. A experiência de 2019 ainda serve como referência. Naquele momento, a combinação entre baixa cobertura vacinal e entrada de pessoas não imunizadas foi suficiente para restabelecer a transmissão sustentada.
Agora, o contexto global amplia essa preocupação.
Entre 2025 e o início de 2026, as Américas registraram mais de 15 mil casos de sarampo, com concentração nos Estados Unidos, México e Canadá, países que receberão a Copa do Mundo de 2026. O fluxo internacional de pessoas tende a aumentar a exposição ao vírus, inclusive para brasileiros.
O problema não é acesso, é confiança
Apesar da ampla disponibilidade da vacina no SUS, o principal obstáculo atual não está na oferta.
Segundo o farmacêutico Dr. Clenildo Campos, mestre em Patologia pela Escola Paulista de Medicina e professor do ICTQ, o maior desafio hoje é a hesitação vacinal.
“Embora o acesso tenha sido ampliado de forma significativa, o grande gargalo atual reside na hesitação vacinal. Ainda enfrentamos fortes resquícios de desinformação e fake news, que minam a confiança da população na eficácia das vacinas”, explica.
Esse cenário altera a dinâmica do problema, a vacina existe, está disponível e é eficaz. O que falta é adesão.
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Farmácia passa a ser ponto estratégico de vacinação
Nesse contexto, a farmácia comunitária ganha um papel cada vez mais relevante.
Por ser o estabelecimento de saúde mais acessível à população, ela se torna um ponto de contato direto para revisão do histórico vacinal e orientação ao paciente.
Na prática, essa atuação pode ser estruturada dentro do atendimento clínico.
“O farmacêutico deve incluir a avaliação vacinal na anamnese padrão, solicitando a caderneta de vacinação. Caso identifique atraso, pode orientar, prescrever e, se estiver habilitado, administrar as doses conforme as recomendações do PNI”, detalha Clenildo.
Esse tipo de abordagem amplia o alcance da vacinação e contribui diretamente para recuperação de esquemas incompletos, especialmente em adultos, que muitas vezes não se percebem como público de risco.
Identificação precoce pode evitar surtos
Além da prevenção, o farmacêutico também atua na identificação de casos suspeitos.
O sarampo apresenta um conjunto de sinais clínicos característicos, mas que podem ser confundidos com outras doenças no início do quadro. Reconhecer esses sinais e agir rapidamente pode ser decisivo para interromper a cadeia de transmissão.
“O farmacêutico deve estar treinado para identificar sintomas como tosse, coriza, conjuntivite, febre alta e exantema. Ao suspeitar, deve isolar o paciente imediatamente e acionar a vigilância epidemiológica”, explica o especialista.
Esse tipo de intervenção, quando feita de forma precoce, pode impedir que um caso isolado se transforme em surto.
Viagens internacionais ampliam risco
O aumento da circulação internacional também exige uma abordagem mais ativa.
A chamada medicina do viajante passa a fazer parte da rotina clínica, especialmente em períodos de grandes eventos globais.
“O farmacêutico deve verificar o status vacinal antes da viagem e recomendar a atualização com antecedência mínima de 15 dias”, orienta Clenildo.
Essa atuação preventiva reduz o risco de importação de casos e contribui para manter o controle da doença no país.
O farmacêutico na linha de frente do controle do sarampo
Dentro das estratégias de controle, o farmacêutico se posiciona de forma decisiva em duas etapas principais: prevenção e identificação precoce.
Como profissional mais acessível à população, ele atua diretamente na orientação vacinal, na revisão de esquemas incompletos e na educação em saúde. Ao mesmo tempo, sua capacidade de reconhecer sinais clínicos permite agir rapidamente diante de casos suspeitos.
Essa combinação faz com que a atuação farmacêutica tenha impacto direto na manutenção do controle epidemiológico.
Capacitação clínica como base para atuação efetiva
A complexidade desse cenário exige preparo.
Lidar com vacinação, interpretar sinais clínicos, orientar pacientes e atuar em conjunto com a vigilância epidemiológica demanda formação clínica estruturada e atualização constante.
A Pós-Graduação em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica do ICTQ prepara o farmacêutico para esse tipo de atuação, desenvolvendo competências voltadas à avaliação do paciente, tomada de decisão clínica e atuação em serviços de saúde.
O programa permite que o profissional atue com mais segurança tanto na prevenção quanto na identificação de doenças, ampliando sua capacidade de intervenção no cuidado.
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