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Queda na incidência de HIV no Brasil destaca importância do farmacêutico na prescrição da PrEP

Egle Leonardi   06 Agosto 2025   2096   Farmácia Clínica
Queda na incidência de HIV no Brasil destaca importância do farmacêutico na prescrição da PrEP

O Brasil atingiu, em janeiro de 2025, um marco inédito na luta contra o HIV: a razão de 3,1 pessoas usando a profilaxia pré-exposição (PrEP) para cada novo caso detectado do vírus. Segundo o diretor do Departamento de HIV/Aids do Ministério da Saúde, Draurio Barreira, quando essa proporção é alcançada — em qualquer unidade de saúde, município, estado ou país — os estudos mostram uma tendência de queda sustentada na incidência da infecção. A previsão do Ministério é de que os dados consolidados de 2025 demonstrem uma redução importante e duradoura nas novas infecções.

“A gente espera, e já está conseguindo demonstrar, que irá ter uma queda importante este ano. Os dados parciais já mostram isso, e acredito que ela será robusta”, declarou Barreira ao Metrópoles. Segundo ele, mais de 185 mil brasileiros utilizam atualmente a PrEP, administrada por via oral e de uso diário. Mas novas tecnologias estão em pauta, como o lenacapavir, uma injeção semestral com potencial para revolucionar a prevenção.

Diante desse novo cenário, o farmacêutico é convocado a ocupar um papel estratégico na ampliação do acesso, na orientação da população e no acompanhamento do tratamento, como reforça o professor do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico e coordenador do curso de Farmácia da UNIFIPMoc – Afya, Flavio Figueiredo.

Segundo ele, as farmácias comunitárias são espaços de saúde com grande capilaridade, especialmente em regiões onde há menor acesso à informação e aos serviços especializados. “O número de farmácias é maior que o de unidades básicas de saúde. São a primeira porta que o indivíduo procura. E o farmacêutico, nesse contexto, pode fazer a diferença”, afirma.

Esse protagonismo vai além da dispensação. Para o professor, o farmacêutico pode atuar na educação da população, explicando, de forma clara, o que é a PrEP, como ela funciona e quem pode se beneficiar dela. A comunicação acessível, respeitosa e acolhedora, especialmente com comunidades mais vulneráveis, é fundamental para vencer o estigma e promover o autocuidado.

Um dos maiores desafios da PrEP oral é a adesão: o medicamento deve ser tomado todos os dias, sem falhas. Nesse aspecto, o cuidado farmacêutico individualizado pode garantir o sucesso do tratamento.

“Quando o farmacêutico orienta o paciente de maneira personalizada e contínua, ele se torna mais que um profissional: torna-se um cuidador, um parceiro, alguém em quem o paciente confia”, defende Figueiredo. A adesão se fortalece quando há vínculo, reforçado por consultas regulares, lembretes e acompanhamento farmacoterapêutico.

Lenacapavir: a nova geração da PrEP

O lenacapavir é uma injeção de longa duração, administrada a cada seis meses, e representa uma alternativa promissora para pacientes com dificuldades de manter a PrEP oral. Para Figueiredo, surgem novas oportunidades e responsabilidades.

“A chegada dessas tecnologias exige preparo. É preciso buscar capacitação, entender aspectos da farmacocinética, das interações medicamentosas e dos protocolos clínicos. Isso vai desde o armazenamento adequado (possivelmente com cadeia de frio) até a aplicação e o rastreamento ativo dos pacientes para garantir que retornem no tempo certo”, explica o professor.

Testagem e encaminhamento ampliam o papel clínico

A testagem prévia é essencial antes do início da PrEP. Nesse ponto, Figueiredo ressalta que o farmacêutico deve ser capacitado para realizar testes rápidos, sempre respeitando os protocolos e a legislação vigente.

“O papel do farmacêutico vai desde o acolhimento com escuta ativa até a educação sobre a importância da testagem regular. A partir de uma entrevista clínica bem conduzida, ele pode identificar oportunidades para sugerir testagens e fazer o encaminhamento adequado dentro da rede de saúde”, comenta.

Os testes rápidos realizados em farmácia têm caráter de triagem e precisam ser confirmados por exames laboratoriais de referência. Ainda assim, a farmácia pode ser o primeiro ponto de contato com o cuidado, desde que o profissional esteja preparado e comprometido com boas práticas clínicas e éticas.

Desafios estruturais e capacitação contínua

Para que o farmacêutico esteja preparado para integrar essas estratégias de prevenção, Figueiredo destaca a necessidade de educação continuada. “Temos que estar ligados ao que há de novo, por meio de cursos de pós-graduação e capacitações. A prevenção do HIV exige conhecimento técnico, empatia e ética”, pontua.

Ele também alerta para desafios logísticos com os novos medicamentos, como o lenacapavir. “A administração especializada, a manutenção da cadeia de frio e o registro dos pacientes exigem uma nova estrutura de trabalho nas farmácias. Mas tudo isso pode ser vencido com treinamento e organização”.

Conexão com populações vulneráveis

O papel social do farmacêutico ganha ainda mais relevância quando se trata de grupos vulneráveis. “Populações LGBTQIA+, pessoas em situação de rua, profissionais do sexo, todas essas comunidades enfrentam barreiras sociais e institucionais. O farmacêutico pode ajudar a romper essas barreiras com acolhimento, escuta e informação segura”, afirma.

Nesse sentido, o trabalho em rede com organizações sociais e equipes multiprofissionais é essencial. “O farmacêutico pode sair do balcão e ir aos territórios, estabelecendo vínculo com essas comunidades. É uma atuação humanizada e transformadora”.

Para Figueiredo, o avanço das tecnologias preventivas exige um reposicionamento da farmácia como espaço clínico de cuidado. “Devemos abandonar a ideia da farmácia apenas como comércio. Ela precisa ser reconhecida como espaço de saúde, com consultórios, sigilo e privacidade para acolher o paciente com respeito e segurança”.

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A atuação nesse novo modelo demanda comprometimento com a ciência, com o SUS e com o protagonismo profissional. “A prevenção do HIV não depende só de medicamentos, mas de vínculos, de educação e de uma escuta ativa. O farmacêutico é essencial nessa jornada”.

Uma nova era no combate ao HIV

Com o avanço da PrEP oral, a chegada do lenacapavir e a participação crescente dos farmacêuticos, o Brasil se aproxima de um novo capítulo no combate ao HIV. Como destaca Barreira, a meta é continuar expandindo a prevenção, a testagem e o cuidado.

E como reforça Flavio Figueiredo, o farmacêutico é um agente de transformação: “Nós somos comprometidos com uma saúde mais humana, inclusiva e baseada em evidências. A PrEP pode mudar vidas, mas só fará diferença se houver acesso, acolhimento e empoderamento. E nisso, nós farmacêuticos temos um papel decisivo”.

Capacitação farmacêutica

A formação contínua e a capacitação dos farmacêuticos são essenciais para a prestação de serviços clínicos de qualidade. Os cursos de pós-graduação oferecidos pelo ICTQ focam na prestação de serviços clínicos considerando diversos contextos de atenção farmacêutica, com o objetivo de promover o uso racional de medicamentos. Conheça:

Saiba mais sobre os cursos de pós-graduação do ICTQ  AQUI.

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