“O que está acontecendo no mercado dessas canetas emagrecedoras nas farmácias de manipulação é um grande absurdo...A proposta do Sindusfarma é simplesmente proibir a manipulação...O assunto é urgente. Se é urgente, nós temos que fazer isso para amanhã”, afirmou o presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Nelson Mussolini, durante 7ª Reunião da Diretoria Colegiada (Dicol) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 6 de maio de 2026. Essa fala teria colocado a entidade no centro de uma forte reação do setor magistral.
Para representantes de farmácias de manipulação, a declaração abriria um impasse ético, regulatório e econômico sobre o acesso à tirzepatida e a outros agonistas de GLP-1. Na avaliação dessas fontes, ao defender publicamente a proibição da manipulação, o Sindusfarma não estaria apenas cobrando maior rigor sanitário, mas atuando para restringir uma alternativa terapêutica individualizada e potencialmente mais acessível a pacientes com obesidade e diabetes.
O setor afirma que, ao pedir a proibição da manipulação magistral desse fármaco, o representante patronal não estaria apenas atentando contra a economia de milhares de pacientes, mas, fundamentalmente, estaria descumprindo a própria missão institucional da entidade que preside: "A missão do Sindusfarma é representar, defender e impulsionar a indústria farmacêutica no Brasil, promovendo a evolução científica e o desenvolvimento do setor para garantir o acesso a medicamentos eficazes e melhorar a saúde e o bem-estar da população".
A posição foi recebida por representantes do setor magistral como uma tentativa de banimento de uma alternativa terapêutica que, segundo essas fontes, poderia ampliar o acesso de pacientes com obesidade e diabetes a tratamentos de alto custo. Para esse segmento, a fala do representante patronal não se limitaria a uma preocupação sanitária, mas poderia atingir diretamente a economia de milhares de pacientes e contrariar a missão institucional de uma entidade que afirma atuar também pela melhoria da saúde e do bem-estar da população.
O medicamento bilionário
A crítica ganhou força porque a tirzepatida industrializada está entre os medicamentos de maior interesse terapêutico e comercial no país. Na avaliação de setores ligados às farmácias magistrais, restringir a manipulação individualizada poderia interromper tratamentos em curso, reduzir alternativas prescritas por médicos e ampliar a desigualdade no acesso à medicina de ponta, especialmente para pacientes que não conseguem arcar com os preços das apresentações industrializadas.
A reportagem procurou o Sindusfarma por e-mail e mensagem para esclarecer se a entidade defende a proibição integral da manipulação individualizada da tirzepatida ou a adoção de controles adicionais para importação, rastreabilidade, esterilidade, estabilidade e farmacovigilância. Também questionou como o sindicato concilia sua posição com a agenda de acesso a medicamentos e como responde às críticas de que sua atuação poderia favorecer a concentração de mercado em produtos industrializados. Até o fechamento desta edição, não houve resposta específica às perguntas enviadas, mas estamos abertos.
Direção oposta ao compromisso de garantir acesso
Para esses representantes, ao solicitar o banimento ou a restrição da manipulação de uma alternativa terapêutica individualizada, o presidente executivo do Sindusfarma caminharia na direção oposta ao compromisso de garantir acesso. A leitura do setor magistral é que, se a medida prosperar de forma ampla, pacientes que já realizam tratamento poderiam ser obrigados a migrar exclusivamente para medicamentos industrializados de alto custo ou abandonar a terapia.
Na prática, segundo a avaliação dessas fontes, a postura do sindicato poderia interromper tratamentos em curso, agravar o quadro de saúde de pacientes com obesidade e diabetes e aumentar a desigualdade no acesso a terapias inovadoras. O questionamento feito pelo setor é direto: como uma entidade que declara promover o bem-estar da população poderia defender uma medida que, na visão dos críticos, restringiria o acesso a medicamentos cuja versão industrializada é proibitiva para grande parte dos brasileiros?
A controvérsia, portanto, ultrapassa o campo técnico e assume dimensão ética, econômica e regulatória. Para o setor magistral, o debate sobre segurança sanitária não poderia ser usado como argumento genérico para eliminar toda a manipulação individualizada da tirzepatida, especialmente quando realizada por farmácias com estrutura técnica, prescrição médica, rastreabilidade e cumprimento das normas sanitárias.
O desconhecimento da vanguarda magistral
Outra frente da crítica recai sobre a forma como o Sindusfarma tem se posicionado em relação às farmácias de manipulação. Segundo representantes do segmento, ao tratar a manipulação da tirzepatida como risco a ser combatido de maneira ampla, a entidade poderia contribuir para desgastar a imagem de farmácias que atuam regularmente, com laboratórios estruturados e controles técnicos voltados à segurança do paciente.
A crítica se apoia na própria agenda de excelência técnica e científica atribuída ao Sindusfarma. Para o setor magistral, se a entidade afirma promover difusão do conhecimento, inovação, qualidade e segurança, deveria reconhecer que parte das farmácias brasileiras de manipulação de injetáveis opera com laboratórios de alta complexidade, processos rigorosos e investimentos relevantes em tecnologia farmacêutica.
Essas farmácias seguem normas como a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 67/2007 e a Nota Técnica (NT) 200/2025, que estabelecem parâmetros de segurança e qualidade para a manipulação. Na visão do segmento, ignorar essa estrutura equivaleria a negar que a farmácia magistral também participa da evolução científica e tecnológica do setor farmacêutico brasileiro.
Supostamente, os produtos manipulados seriam equivalentes aos industrializados, porém, a equivalência depende de controles, documentação, estabilidade, esterilidade, qualidade do insumo, rastreabilidade e conformidade sanitária caso a caso. Ainda assim, o setor magistral sustenta que farmácias regulares não poderiam ser confundidas com operações clandestinas ou com práticas irregulares de produção em escala sem prescrição individualizada.
Para os críticos, o ponto central é outro: a manifestação do Sindusfarma não estaria apenas preocupada com técnica e segurança, mas poderia preservar o espaço de mercado de produtos industrializados de alto custo sob o argumento de zelo sanitário. Essa é uma acusação grave, e ainda não respondida diretamente pela entidade nas perguntas encaminhadas pela reportagem.
Dezesseis anos de omissão e uma aparição seletiva
A participação de Nelson Mussolini na reunião da Dicol também passou a ser usada como elemento político na crítica do setor magistral. Segundo essa leitura, o próprio presidente executivo do Sindusfarma teria mencionado que aquela seria apenas a segunda vez em que comparecia a uma reunião da diretoria colegiada da Anvisa em 16 anos à frente do sindicato.
Para representantes do setor magistral, a informação causaria estranheza porque a Anvisa pauta regularmente temas de alta relevância para a regulação sanitária, para o desenvolvimento industrial e para a segurança dos medicamentos no Brasil. A pergunta que passou a circular no setor é onde estaria a presidência do Sindusfarma durante outros debates regulatórios considerados igualmente relevantes para o parque farmacêutico nacional.
A crítica é que a presença da entidade teria se tornado mais contundente justamente no momento em que a farmácia magistral passou a disputar espaço em uma terapia de grande valor comercial. Para esses representantes, a aparição seletiva poderia indicar que a principal preocupação não seria apenas a saúde pública, mas também a defesa de interesses econômicos de empresas que detêm produtos industrializados e não desejariam dividir esse mercado com o segmento magistral.
Essa leitura é dura e precisa ser atribuída. Não há, até o fechamento desta edição, comprovação pública de que a entidade atue com objetivo ilícito ou deliberado de preservar monopólio. O que existe é uma crítica setorial, politicamente relevante, de que a atuação do Sindusfarma poderia favorecer, como efeito prático, as indústrias que comercializam medicamentos de alto custo em detrimento de uma alternativa individualizada prescrita por médicos.
Saúde não é privilégio, é direito
Para o setor magistral, a tentativa de proibição da tirzepatida manipulada significaria concentrar o acesso à saúde em medicamentos industrializados de altíssimo custo. A crítica é que, para grande parte da população brasileira, as apresentações industrializadas da tirzepatida funcionariam como um item inacessível, reservado a pacientes com maior poder aquisitivo.
Nessa perspectiva, ao atacar ou restringir a manipulação magistral, o Sindusfarma poderia contribuir para transformar uma terapia inovadora em privilégio de poucos. A pergunta feita por representantes do segmento é se a entidade estaria mais preocupada com a segurança do paciente ou com a preservação do faturamento das multinacionais que representa.
O debate sobre a tirzepatida, defendem essas fontes, deveria colocar o paciente no centro da discussão, e não apenas os interesses econômicos da indústria. Para o setor magistral, seria contraditório que uma entidade que prega desenvolvimento técnico do setor apoie medidas capazes de sufocar um segmento que gera empregos, investe em infraestrutura, atende prescrições individualizadas e oferece tratamentos personalizados.
A crítica não elimina a necessidade de fiscalização. Medicamentos injetáveis exigem rigor elevado, e qualquer falha de controle pode representar risco ao paciente. O problema, segundo o setor magistral, seria usar casos de irregularidade como justificativa para atingir também farmácias que atuam com seriedade, sob prescrição, com rastreabilidade e em conformidade com as normas sanitárias.
O silêncio sobre as falhas da indústria
Outro ponto levantado por representantes do setor magistral é o que chamam de silêncio seletivo sobre problemas da própria indústria farmacêutica. Enquanto o Sindusfarma concentraria sua energia em questionar as farmácias de manipulação, pouco se ouviria da entidade, segundo esses críticos, sobre desabastecimento de medicamentos industriais, preços elevados e barreiras econômicas que excluem milhões de cidadãos do acesso a tratamentos.
A crítica é que a ética de uma entidade de classe deveria ser medida pela coerência. Para o setor magistral, atacar farmácias que atuam regularmente e seguem os rigores técnicos exigidos pela vigilância sanitária, ao mesmo tempo em que se preserva de discutir o impacto dos preços e da concentração de mercado, poderia revelar uma assimetria incômoda na atuação institucional.
Receba nossas notícias por e-mail: Cadastre aqui seu endereço eletrônico para receber nossas matérias diariamente
Na visão dos críticos, proteger o paciente exige combater irregularidades em todos os lados: farmácias sem controle, importadores sem rastreabilidade, propaganda irregular, produção em escala disfarçada de individualização, mas também práticas de mercado que tornam medicamentos essenciais inacessíveis para grande parte da população.
O setor magistral sustenta que a discussão não deveria ser manipulada como uma falsa escolha entre segurança e acesso. A saída seria fortalecer a fiscalização, exigir controle técnico rigoroso, punir irregularidades e preservar a possibilidade de manipulação individualizada quando houver prescrição médica, estrutura adequada, documentação e cumprimento integral das normas sanitárias.
Liderança apenas para barrar alternativas de acesso?
O embate sobre a tirzepatida tornou-se um momento decisivo para pacientes, farmacêuticos, médicos, autoridades sanitárias, indústria e farmácias magistrais. A pergunta feita por representantes do setor magistral é se o setor farmacêutico deseja uma liderança que apareceria apenas para barrar alternativas de acesso ou uma representação capaz de defender inovação, segurança e pluralidade terapêutica de forma equilibrada.
Para esses representantes, a tirzepatida manipulada simbolizaria a soberania técnica do farmacêutico e o direito do médico de prescrever o que considera mais adequado ao paciente, desde que dentro das normas sanitárias. A tentativa de criminalizar ou proibir a atividade, segundo essa visão, poderia representar um retrocesso para a ciência, para a cidadania e para o acesso à saúde.
O Sindusfarma, avaliam os críticos, deveria honrar sua própria missão de melhorar a saúde e o bem-estar da população apoiando uma convivência regulada entre indústria e farmácia magistral. Em vez de tratar o setor magistral como ameaça, a entidade poderia defender regras claras, fiscalização forte e punição a desvios, sem eliminar a atuação de farmácias regulares que cumprem os requisitos técnicos.
A controvérsia permanece aberta. De um lado, há a necessidade legítima de controle rigoroso sobre medicamentos injetáveis complexos. De outro, há o risco de que a defesa da segurança sanitária seja convertida em instrumento de exclusão econômica. Entre esses dois extremos, o paciente precisa ser o centro da decisão regulatória. Sem essa prioridade, a disputa sobre a tirzepatida continuará parecendo menos uma defesa da saúde pública e mais uma guerra por mercado.
Participe também: Grupos de WhatsApp e Telegram para receber notícias




