A decisão da Novo Nordisk de abrir uma loja oficial no Mercado Livre do México para comercializar medicamentos da classe GLP-1 repercutiu no mercado financeiro brasileiro e pressionou as ações das principais redes de farmácias listadas na B3. Apesar da reação dos investidores, analistas do JPMorgan consideram que o movimento foi exagerado, argumentando que as regras regulatórias brasileiras tornam pouco provável a reprodução desse modelo no País.
Na terça-feira (30), os papéis da RD Saúde (RADL3) recuaram 2,04%, encerrando o pregão a R$ 16,81, enquanto a Pague Menos (PGMN3) caiu 2,17%, cotada a R$ 3,61. A desvalorização ocorreu após a divulgação de que a fabricante do Ozempic passou a utilizar o Mercado Livre como canal oficial de distribuição digital no México.
Novo canal amplia distribuição de medicamentos GLP-1 no México
A iniciativa permite que a Novo Nordisk comercialize medicamentos prescritos, como Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Saxenda, por meio da infraestrutura logística e dos sistemas de pagamento do Mercado Livre. A estratégia busca ampliar o acesso aos tratamentos para diabetes e obesidade utilizando uma plataforma consolidada de comércio eletrônico.
A notícia levantou preocupações entre investidores brasileiros sobre uma possível expansão semelhante do Mercado Livre no setor farmacêutico nacional, especialmente após a aquisição de uma farmácia física em São Paulo e o lançamento da operação MELI Farma.
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Regulamentação brasileira impõe barreiras
Na avaliação do JPMorgan, a comparação entre os mercados mexicano e brasileiro possui limitações importantes. O banco destaca que a legislação brasileira estabelece exigências específicas para a comercialização remota de medicamentos.
Segundo as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a venda on-line somente pode ser realizada por farmácias ou drogarias devidamente licenciadas e abertas ao público. Além disso, os medicamentos devem permanecer armazenados em estabelecimentos autorizados e sob supervisão de farmacêuticos durante todo o período de funcionamento.
No caso dos medicamentos da classe GLP-1, as exigências são ainda mais rigorosas. Desde junho de 2025, produtos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro passaram a exigir retenção da receita médica no momento da dispensação, além do registro da movimentação em sistemas específicos de controle, aumentando a complexidade operacional desse mercado.
Para os analistas, esse conjunto de exigências regulatórias dificulta a implementação, no Brasil, de um marketplace com características semelhantes ao observado no México.
MELI Farma concentra atuação em medicamentos isentos de prescrição
O relatório também aponta que a estratégia atual da MELI Farma está direcionada principalmente para medicamentos isentos de prescrição e outras categorias com menor complexidade regulatória.
Além disso, análises realizadas pelo próprio JPMorgan indicam que o Mercado Livre não apresenta, de forma geral, preços significativamente mais competitivos na maior parte das categorias farmacêuticas disponíveis atualmente.
Na visão da instituição, a aquisição de uma única farmácia representa mais um teste operacional e uma prova de conceito do que o início de uma ampla expansão nacional baseada em marketplace para medicamentos sujeitos a controle especial.
Segundo os analistas, um modelo semelhante ao implementado no México dependeria de alterações relevantes no ambiente regulatório brasileiro.
Banco considera reação do mercado exagerada
Diante desse cenário, o JPMorgan entende que a queda das ações das redes de farmácias foi desproporcional aos riscos efetivos.
O banco afirma que vê oportunidade de compra, especialmente para os papéis da RD Saúde, negociados atualmente a cerca de 14 vezes o lucro estimado para 2027. Já a Pague Menos negocia aproximadamente a sete vezes o lucro projetado para o mesmo período.
Mercado mexicano ainda apresenta baixa penetração
O relatório também destaca características específicas do mercado mexicano de medicamentos GLP-1 que limitam seu potencial de expansão.
Segundo o banco, apenas cerca de 0,1% da população adulta utiliza esse tipo de tratamento no país. Além disso, o custo mensal da terapia corresponde aproximadamente a um quarto da renda média das famílias mexicanas, fator que restringe o acesso aos medicamentos e reduz o tamanho atual do mercado consumidor.
Esse contexto, segundo os analistas, demonstra que, mesmo com novos canais digitais de distribuição, o crescimento das vendas ainda depende de fatores econômicos e da capacidade financeira da população, além das particularidades regulatórias de cada país.
O que isso significa para o farmacêutico
Para o farmacêutico, o tema reforça a importância de uma atuação cada vez mais técnica, estratégica e integrada às demandas do cuidado em saúde. Seja na orientação ao paciente, na segurança do uso de medicamentos, na gestão de processos ou na interface com equipes multiprofissionais, o profissional passa a ocupar um papel decisivo na transformação desse cenário. Mais do que acompanhar as mudanças, o farmacêutico precisa compreendê-las, interpretá-las e aplicá-las com responsabilidade, visão crítica e domínio técnico.
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