Poucos tratamentos evoluíram tão rapidamente quanto os destinados ao diabetes tipo 2 e à obesidade. Depois da popularização das canetas de semaglutida, uma nova tecnologia começa a ganhar espaço na pesquisa farmacêutica: implantes subcutâneos capazes de liberar o medicamento continuamente por até um ano após uma única aplicação.
A proposta ainda está distante da prática clínica, mas chama atenção por tentar resolver um dos principais desafios dessas doenças: a baixa adesão ao tratamento. Para o farmacêutico, o avanço reforça a importância de acompanhar uma nova geração de sistemas de liberação de medicamentos, que pode alterar protocolos terapêuticos, estratégias de acompanhamento e até a rotina de dispensação nos próximos anos.
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Implante libera semaglutida durante um ano
A biofarmacêutica americana Vivani Medical, em parceria com a Novo Nordisk, anunciou o desenvolvimento do NPM-139, um implante miniaturizado que libera semaglutida de forma contínua por até 12 meses.
O dispositivo utiliza a plataforma NanoPortal, tecnologia criada para controlar a liberação do princípio ativo de maneira estável ao longo do tempo. O objetivo é evitar as oscilações de concentração observadas entre as aplicações semanais, mantendo níveis mais constantes do medicamento no organismo.
Segundo a empresa, cerca de metade dos pacientes com diabetes e obesidade não consegue manter o tratamento medicamentoso conforme prescrito. No caso dos agonistas do receptor de GLP-1, fatores como náuseas, desconforto gastrointestinal, aplicações repetidas e necessidade de disciplina por longos períodos contribuem para esse cenário.
A proposta do implante é reduzir essa dependência da adesão semanal, concentrando o tratamento em um único procedimento minimamente invasivo.
Estudos iniciais indicam segurança
A tecnologia já foi testada anteriormente com outro agonista de GLP-1. No estudo LIBERATE-1, realizado na Austrália com 24 voluntários com sobrepeso ou obesidade, um implante contendo exenatida apresentou perfil favorável de segurança e tolerabilidade, sem eventos adversos graves relacionados ao dispositivo e sem evidências de liberação abrupta do medicamento.
Em estudos pré-clínicos com roedores, o NPM-139 manteve redução de peso próxima de 20% em comparação ao grupo controle durante mais de um ano. Apesar dos resultados promissores, os dados ainda se restringem a modelos animais e não permitem concluir que o mesmo desempenho será observado em humanos.
Testes clínicos começam na Austrália
O próximo passo será o estudo clínico SLIM-1, que comparará o implante de semaglutida com aplicações semanais de Wegovy em baixa dose em 20 adultos com sobrepeso ou obesidade.
Nesta primeira fase, o foco não será avaliar perda de peso, mas analisar segurança, farmacocinética e tolerabilidade do dispositivo. Os primeiros resultados são esperados até o fim de 2026.
Mesmo em caso de resultados positivos, o implante ainda precisará passar pelas etapas seguintes de desenvolvimento clínico e pelas avaliações de agências regulatórias, como a Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil.
Tecnologia ainda não tem previsão de chegada ao mercado
Especialistas lembram que dispositivos desse tipo costumam levar vários anos entre os primeiros estudos clínicos e uma eventual aprovação comercial. Além da demonstração de eficácia em estudos maiores, será necessário avaliar aspectos como segurança em longo prazo, custo, aceitação pelos pacientes e incorporação na prática médica.
Enquanto isso, a inovação sinaliza uma tendência importante da indústria farmacêutica: desenvolver formas de administração que reduzam a dependência da adesão contínua do paciente e ampliem a efetividade dos tratamentos para doenças crônicas como diabetes e obesidade.
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