Aos 15 anos, Alfredo* trocou a bola de basquete pelos halteres. A força que antes usava para arremessar a bola agora é aplicada para empurrar uma barra olímpica que, sozinha, pesa 20 quilos, mas ganha peso extra com anilhas. Foi nesse ambiente, entre treinos e conversas de academia, que o adolescente entrou em contato com um lado pouco discutido da busca pelo corpo considerado estético: a naturalização do uso de hormônios.
Há cerca de um mês, Alfredo recebeu com aflição a notícia da morte do influenciador e fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos. O laudo apontou uma doença cardíaca que, segundo especialistas, pode ser agravada pelo uso de esteroides anabolizantes. Em vida, Ganley falava abertamente sobre as substâncias que utilizava e os efeitos que elas provocavam no próprio organismo.
A morte do influenciador trouxe para o centro do debate um tema que há anos preocupa médicos e pesquisadores, mas que deixou de estar restrito ao fisiculturismo. Hoje, o uso de hormônios já faz parte do imaginário de muitos frequentadores de academias, inclusive adolescentes.
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Venda de testosterona cresce e mercado clandestino amplia riscos
Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que a venda de testosterona, principal hormônio utilizado para fins estéticos, cresceu mais de 700% nos últimos sete anos. Em 2025, foram comercializadas mais de 7 milhões de doses no país, uma média de uma unidade vendida a cada cinco segundos.
Os números consideram apenas o mercado legal. Grande parte das substâncias utilizadas para fins estéticos circula clandestinamente, sem controle de qualidade, rastreabilidade ou fiscalização sanitária. Isso amplia os riscos para usuários, especialmente adolescentes, que muitas vezes têm acesso a produtos de origem desconhecida, doses inadequadas e protocolos sem acompanhamento médico.
Embora nunca tenha usado anabolizantes, Alfredo admite que o acesso às substâncias está longe de ser um mistério. “Conheço o pessoal da academia que usa. Nunca me ofereceram diretamente, mas, se eu quisesse, conseguiria”, diz.
O adolescente também reconhece que o assunto já aparece como possibilidade entre jovens que pensam em competir no fisiculturismo. “Penso em treinar e desenvolver o máximo que eu puder. Depois, talvez eu use alguma coisa para conseguir competir.”
A fala ilustra uma preocupação central dos especialistas: a ideia de que, para alcançar determinado padrão físico, o uso de hormônios seria apenas mais uma etapa do processo.
Estética é principal motivação entre adolescentes
Uma pesquisa realizada por pesquisadores do Centro Universitário do Sul de Minas (UNIS-MG), em Varginha, apontou que a principal motivação de adolescentes de 13 a 17 anos para frequentar academias é a busca pela estética corporal.
Em uma geração que cresceu conectada às redes sociais, corpos extremamente definidos aparecem diariamente na tela do celular e passam a funcionar como referência de sucesso, disciplina e aceitação social.
Para o endocrinologista Neuton Dornelas Gomes, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), esse ambiente favorece a construção de padrões muitas vezes inalcançáveis. “A gente vê um cenário de culto ao corpo perfeito, onde se idealizam corpos que são inatingíveis ou só são atingíveis com o uso de hormônios”, afirma.
Segundo ele, os algoritmos das redes sociais reforçam esse comportamento ao exibir repetidamente conteúdos semelhantes. “Infelizmente, a gente tem influenciadores mostrando essa fórmula mágica de realização pessoal, melhora da autoestima e maior integração social por um corpo talvez melhor desenhado.”
O especialista explica que adolescentes estão entre os grupos mais vulneráveis, principalmente quando já apresentam sofrimento em relação à própria imagem. “O adolescente que tem excesso de peso ou uma compleição menor pode ter um risco até 12 vezes maior de recorrer aos esteroides anabolizantes quando comparado a outro que já se enquadra no padrão corporal considerado ideal.”
Influência vai além das redes sociais
A banalização do uso também é percebida por quem vive o universo da musculação. Aos 55 anos, o fisiculturista Fernando Moreno encontrou no esporte uma forma de superar uma depressão grave e considera a musculação uma ferramenta de transformação.
“A musculação tem o poder de salvar vidas. Se eu não tivesse iniciado naquela época, talvez eu não tivesse mais história de vida”, relata.
Apesar de utilizar hormônios durante períodos de preparação para competições, ele alerta para a forma como o tema é apresentado por criadores de conteúdo. “Os caras passam o dia inteiro gravando vídeos dizendo que estão tomando isso ou aquilo. Eles colocam tudo de uma forma muito glamourizada. O problema é que quem está do lado de lá da tela não tem responsabilidade com quem está do lado de cá.”
Fernando afirma observar um número crescente de adolescentes nas academias e acredita que muitos chegam influenciados pelo conteúdo consumido na internet. “Tem muitos que não usam nada e querem fazer da musculação o mesmo que eu fiz: uma âncora para se manter bem fisicamente e mentalmente. Infelizmente, tem aqueles que buscam o outro lado.”
Comparação constante afeta saúde mental
De acordo com o psiquiatra Alexandre Araújo, a comparação permanente com influenciadores e outros perfis nas plataformas digitais pode gerar sofrimento emocional e incentivar a busca por soluções rápidas para atingir um padrão físico.
“A adolescência é uma fase de construção da identidade, em que a influência do grupo é muito grande. Com a hiperexposição às redes sociais e a comparação constante com padrões de beleza, muitos jovens acabam criando uma pressão emocional para atingir um corpo considerado ideal e podem recorrer aos anabolizantes para chegar mais rápido a esse objetivo”, avalia.
O médico destaca que o problema atinge meninos e meninas, embora elas possam ser ainda mais afetadas pela cobrança estética. Além dos riscos físicos, como alterações hepáticas e cardiovasculares, o uso indiscriminado dessas substâncias pode provocar irritabilidade, aumento da agressividade, ansiedade e sofrimento psíquico.
Para o psiquiatra, o acompanhamento familiar é essencial para identificar sinais de sofrimento relacionados à imagem corporal. Diante da suspeita de uso de anabolizantes, ele recomenda diálogo e acolhimento, não punição imediata.
“O primeiro passo é entender por que esse adolescente está usando esse tipo de substância. Antes de qualquer confronto, é importante ouvir, compreender quais necessidades psicológicas estão por trás dessa decisão e, se necessário, buscar ajuda profissional para trabalhar essas questões.”
Uso indiscriminado já é tratado como problema de saúde pública
Para a SBEM, o uso indiscriminado de hormônios para fins estéticos e de performance deve ser tratado como um problema de saúde pública. “A sociedade trata esse mau uso de hormônios para fins estéticos e de performance como um verdadeiro problema de saúde pública, de tão frequente que ele se tornou”, afirma Neuton.
Segundo o endocrinologista, um dos maiores desafios é que boa parte dessas substâncias é obtida clandestinamente, muitas vezes em formulações sem aprovação para uso humano. “Existem formulações que sequer têm estudos em humanos. É o caso da trembolona, bastante utilizada no fisiculturismo e extremamente tóxica para o coração e para o sistema nervoso central.”
Além dos riscos cardiovasculares, o uso durante a adolescência pode comprometer o desenvolvimento sexual, reduzir a estatura final, provocar infertilidade e causar alterações permanentes, especialmente em meninas.
Outro ponto de preocupação é a dependência. “Nós sabemos que esses hormônios causam dependência e uma síndrome de abstinência bastante semelhante à dos opioides”, diz o médico.
O problema também envolve a vigorexia, conhecida como dismorfia muscular, um transtorno marcado pela percepção distorcida da própria imagem corporal. Nesses casos, o tratamento deve envolver equipe multidisciplinar, com endocrinologista, psicólogo, psiquiatra e nutricionista.
Resultados são possíveis sem hormônios, reforçam especialistas
Apesar da pressão estética e da promessa de resultados rápidos, especialistas reforçam que é possível alcançar desenvolvimento físico com treino adequado, alimentação, sono e acompanhamento profissional.
“Eles podem ter um shape legal sem precisar usar hormônio. Talvez não no mesmo grau de hipertrofia, mas, com treino adequado, alimentação correta, sono e suplementos como creatina e whey protein, é possível desenvolver um excelente físico”, afirma Neuton.
Para apoiar pessoas que desejam interromper o uso dessas substâncias, a SBEM e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) lançaram o programa Saindo do Suco com Segurança, que oferece atendimento gratuito e sigiloso para usuários que querem abandonar os hormônios.
Ao final da entrevista, o endocrinologista resume o alerta que considera mais importante para adolescentes. “Sei que a tentação é grande. A gente sonha em ter aquele corpo que o influenciador mostra. Mas o preço é muito alto. E acreditem: a gente trabalha com isso. Pode-se ter um corpo legal sem precisar usar esses hormônios.”
Em um cenário em que o corpo ideal passou a ser vendido como sinônimo de aceitação, performance e sucesso, o debate sobre anabolizantes precisa sair da lógica individual e entrar na agenda de saúde pública. Para adolescentes, especialmente, a orientação profissional, o diálogo familiar e a educação sobre riscos podem ser decisivos para separar disciplina de exposição perigosa a substâncias que podem deixar marcas permanentes.
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