O Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos, lembrado em 5 de maio, chama atenção para um dos desafios mais persistentes da saúde pública brasileira: o consumo de medicamentos sem orientação adequada.
A data reforça a necessidade de ampliar a conscientização da população sobre os riscos da automedicação, da interrupção precoce de tratamentos, do uso incorreto de doses e da combinação de substâncias sem acompanhamento profissional.
Embora o tema seja discutido há anos por entidades de saúde, instituições de ensino e órgãos reguladores, o comportamento ainda permanece fortemente presente no cotidiano dos brasileiros. Em muitas casas, medicamentos são guardados para uso futuro, indicados entre familiares, reutilizados sem nova avaliação ou escolhidos com base em experiências anteriores.
Esse hábito, aparentemente simples, pode gerar intoxicações, mascarar sintomas, atrasar diagnósticos, agravar doenças e aumentar o risco de interações medicamentosas.
Pesquisa do ICTQ mostrou que 86% dos brasileiros se automedicam
Nesse debate, o ICTQ teve um papel decisivo ao realizar, por anos, pesquisas em parceria com o Datafolha sobre automedicação e uso racional de medicamentos no Brasil. A edição de março de 2024 ouviu 2.017 pessoas, em 113 municípios, e analisou a percepção da população brasileira de 16 anos ou mais e comparou os resultados com a pesquisa realizada em abril de 2022.
Os dados mostram a dimensão do problema. Segundo a pesquisa ICTQ/Datafolha, 86% dos brasileiros com 16 anos ou mais declararam consumir medicamentos por conta própria. O índice representa uma oscilação para baixo em relação a 2022, quando o percentual era de 89%, mas ainda revela uma prática extremamente disseminada no país. Em números absolutos, o estudo estima aproximadamente 138 milhões de brasileiros que se automedicam.
Entre os sintomas que mais levam ao consumo por conta própria, a dor de cabeça aparece em primeiro lugar, citada por 65% dos entrevistados. Em seguida vêm gripes e resfriados, com 50%, febre, com 38%, dores musculares, com 37%, tosse, com 24%, dor de barriga, com 21%, e dor no estômago, com 20%. Esses números mostram que a automedicação está fortemente associada a queixas comuns do dia a dia, justamente aquelas em que a população tende a subestimar riscos e buscar soluções rápidas.
Internet passou a influenciar ainda mais o consumo
Outro ponto importante da pesquisa é o papel crescente da internet nas decisões relacionadas à saúde. O levantamento mostrou que 68% dos brasileiros utilizam a internet para buscar algum tipo de ajuda em situações de saúde. A busca por sintomas no Google foi mencionada por 58% dos entrevistados, enquanto a pesquisa sobre medicamentos em sites de busca chegou a 53%.
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O estudo também identificou que 25% dos brasileiros usam redes sociais para indicação ou recomendação de medicamentos, 23% recorrem à telemedicina e 22% utilizam recursos digitais relacionados à compra de medicamentos com prescrição digital, receita por aplicativos ou SMS. Entre pessoas que se automedicam, o uso da internet para questões de saúde sobe para 73%, indicando uma relação direta entre busca digital e consumo por conta própria.
Esse dado é especialmente relevante porque mostra que a automedicação deixou de ser influenciada apenas por familiares, vizinhos ou experiências anteriores. Hoje, ela também passa por mecanismos de busca, redes sociais, conteúdos rápidos e informações nem sempre confiáveis. O risco não está apenas no acesso à informação, mas na dificuldade de interpretar essa informação corretamente e aplicá-la com segurança.
ICTQ ajudou a colocar o farmacêutico no centro do debate público
A contribuição do ICTQ nesse tema vai além da produção de dados. Ao realizar pesquisas nacionais em parceria com o Datafolha, a instituição ajudou a transformar a automedicação em pauta de saúde pública e a levar o assunto para a imprensa, para o setor farmacêutico e para a sociedade.
Por anos, esses levantamentos deram visibilidade a um problema que muitas vezes era tratado como hábito doméstico, sem a gravidade sanitária que realmente possui. Ao mostrar que milhões de brasileiros utilizam medicamentos por conta própria, que a internet influencia decisões de saúde e que sintomas comuns motivam grande parte desse comportamento, o ICTQ contribuiu diretamente para ampliar a consciência sobre o uso racional de medicamentos.
Esse trabalho também teve um impacto importante para a valorização do farmacêutico. Ao colocar a automedicação na mídia, o ICTQ ajudou a reforçar publicamente que a orientação farmacêutica não é acessória, mas parte essencial da segurança do paciente. A pesquisa trouxe dados, mas também fortaleceu uma narrativa profissional: a população precisa de orientação qualificada para usar medicamentos com segurança.
Uso racional é segurança, não apenas orientação
O uso racional de medicamentos pressupõe que o paciente receba o produto adequado à sua condição clínica, na dose correta, pelo tempo necessário e com orientação profissional. Quando qualquer uma dessas etapas falha, aumenta o risco de eventos adversos, intoxicações, interações medicamentosas, resistência antimicrobiana, agravamento de doenças e internações evitáveis.
Esse problema se torna ainda mais grave quando envolve pessoas com doenças crônicas, idosos, gestantes, crianças, pacientes em uso de múltiplos medicamentos ou indivíduos com alterações hepáticas e renais. Nesses grupos, uma escolha aparentemente simples pode ter consequências relevantes.
Além disso, a automedicação pode mascarar sintomas e retardar a busca por atendimento. Um medicamento usado para aliviar dor, febre ou desconforto pode dar ao paciente a sensação de melhora, enquanto a causa do problema permanece sem avaliação adequada. Por isso, o uso racional precisa ser tratado como uma prática de segurança em saúde.
O farmacêutico como referência contra a automedicação
Nesse cenário, o farmacêutico ocupa uma posição estratégica. Ele é um dos profissionais de saúde mais acessíveis à população e, muitas vezes, o primeiro contato do paciente diante de dúvidas sobre medicamentos, sintomas, efeitos adversos, interações ou continuidade de tratamento.
Sua atuação é decisiva para orientar sobre posologia, horários de administração, riscos de interação, armazenamento correto, efeitos esperados, sinais de alerta e necessidade de procurar atendimento. O farmacêutico não substitui outros profissionais, mas exerce uma função própria no cuidado, principalmente quando o assunto é segurança no uso de medicamentos.
No combate à automedicação, sua presença qualificada muda a relação do paciente com o tratamento. Em vez de escolher um medicamento por impulso, por indicação de terceiros ou por busca na internet, a população passa a ter acesso a uma orientação técnica, ética e baseada em evidências.
Qualificação é indispensável para uma atuação clínica segura
O Dia do Uso Racional de Medicamentos reforça que o farmacêutico precisa estar preparado para responder a uma demanda cada vez mais complexa. O paciente chega à farmácia com dúvidas sobre medicamentos, receitas, sintomas, tratamentos contínuos, eventos adversos, interações e informações encontradas na internet. A qualidade da resposta depende diretamente da formação profissional.
A Pós-Graduação em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica do ICTQ prepara o farmacêutico para atuar nesse cenário, desenvolvendo competências voltadas ao cuidado direto ao paciente, à avaliação farmacoterapêutica, à orientação em saúde e à prescrição dentro dos limites legais da profissão.
Em um país onde 86% da população adulta declara consumir medicamentos por conta própria, a atuação farmacêutica qualificada não é apenas desejável. É uma necessidade de saúde pública. O farmacêutico bem preparado ajuda a reduzir riscos, melhora a adesão aos tratamentos e contribui para que o uso de medicamentos seja, de fato, racional, seguro e responsável.
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