Quem começa a usar semaglutida, o medicamento contido em canetas emagrecedoras como o Wegovy, não pode contar com a receita, uma linha de consumo a curto prazo. É um processo altamente prolongado, pois muitas vezes a pessoa deve usar o medicamento para evitar efeitos colaterais em órgãos vitais.
Esse processo abre um vetor de receita sistemática para laboratórios e clínicas de medicina diagnóstica.
O endocrinologista precisa saber se o órgão do paciente está respondendo bem, se os rins estão funcionando, se a tireoide não está atrapalhando o emagrecimento. Precisa avaliar glicemia, colesterol, enzimas hepáticas. Precisa de um ultrassom para avaliar a vesícula, que fica mais propensa quando o peso cai rápido, segundo endocrinologistas entrevistados pela Folha.
São pelo menos dez exames laboratoriais mais uma ultrassonografia de abdômen. Como fazer isso por rodada, que são repetidas enquanto o tratamento durar. A frequência depende do médico e do perfil do paciente.
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Endocrinologistas ouvidos pela Bloomberg Línea dizem que as baterias de exames e até três vezes durante o tratamento ativo. Cada novo paciente que entra no tratamento se torna, na prática, um contrato de monitoramento recorrente com o setor de medicina diagnóstica.
Em São Paulo, cidade mais populosa do Brasil, clínicas consultadas cobram a partir de cerca de R$ 400 em uma consulta inicial, que pode chegar a mais de R$ 4.000 em quatro ciclos por ano, dependendo do canal de acesso, como consultas à Bloomberg Línea com consulta online.
Laboratórios do segmento premium, como o Grupo Fleury (FLRY3), que opera laboratórios sob as marcas a+ Medicina Diagnóstica, e a Dasa (DASA3), têm um ticket médio de cerca de atendimento digital.
A estimativa de mercado aponta para tíquetes entre R$ 500 e R$ 1.150 por rodada de exames. Com isso, o custo anual de monitoramento varia entre R$ 3.000, no cenário mais acessível, e R$ 4.600 no segmento premium, considerando a realização dos exames quatro vezes ao ano.
No preço cheio da Wegovy, do Ozempic, o custo chega a R$ 538 por rodada. Com o corte de 25% ao ano, sem incluir o custo com o medicamento e com a medicação no período, de acordo com uma verificação feita pela reportagem.
Demanda adicional à vista
Após a aprovação do primeiro genérico para perda de peso nos EUA (em 2024), analistas da indústria farmacêutica têm a expectativa de que o maior acesso às canetas emagrecedoras aumente a demanda por exames de rotina. Até então a farmacêutica Novo Nordisk tinha a exclusividade da substância no Brasil.
A equação para quem analisa as empresas de medicina diagnóstica no Brasil é quanto desse mercado deve se converter em receita adicional e para onde ela vai.
Longe das: Mercado de canetas para emagrecimento deve chegar a R$ 3,2 bi no Brasil
A bateria padrão prescrita pelos endocrinologistas inclui dez exames laboratoriais. Cinco deles cobrem metabolismo e risco cardiovascular, no pacote básico de descartável: hemoglobina glicada (A1c), colesterol e HDL, colesterol total e triglicerídeos.
Além disso, a análise da função hepática inclui a avaliação de enzimas hepáticas — AST (TGO), ALT (TGP) e GGT —, enquanto a avaliação renal inclui a creatinina sérica. Para acompanhar o sistema endócrino, entra o exame de TSH (hormônio estimulante da tireoide).
O conjunto soma exames que, para operadoras e laboratórios, representam um fluxo contínuo de receitas. No entanto, especialistas avaliam que os ganhos não serão distribuídos de forma homogênea entre os players.
Demanda no Brasil
Analistas e gestores do setor afirmam que clínicas, laboratórios e operadoras de saúde devem observar uma demanda crescente por exames laboratoriais, impulsionada pelo aumento do uso de medicamentos como Wegovy e Ozempic.
Segundo dados da IQVIA, o Brasil representa um dos mercados mais promissores para esse tipo de tratamento na América Latina, com crescimento acelerado no número de prescrições.
“Não temos nenhuma prova específica para GLP-1, porque isso acaba sendo usado em acompanhamento de uma situação clínica, como obesidade, hipertensão, diabetes”, diz um especialista.
Há também uma percepção de que o mercado não reagiu ainda de forma coordenada. “Quanto mais você mantiver as pessoas saudáveis, mais tempo elas vão viver e mais receita será gerada”, avalia outro executivo do setor.
Alerta dos EUA
Nos Estados Unidos, dados do CDC indicam que cerca de 40% da população adulta é obesa, o que tem impulsionado a adoção de medicamentos para perda de peso.
A introdução dos medicamentos GLP-1 no mercado americano levou a mudanças nos padrões de consumo e na demanda por serviços de saúde, incluindo exames laboratoriais e acompanhamento médico.
Empresas do setor já relatam aumento na procura por exames relacionados ao monitoramento desses pacientes, reforçando a tese de que há um efeito indireto positivo para o segmento de diagnóstico.
Sem genéricos, biossimilares à vista
A expectativa de crescimento do mercado é sustentada pela inovação contínua e pela ampliação do acesso aos tratamentos.
No Brasil, a entrada de medicamentos biossimilares pode reduzir os preços e ampliar o acesso à terapia, aumentando ainda mais o número de pacientes em acompanhamento.
Com isso, o setor de medicina diagnóstica tende a se beneficiar de um fluxo recorrente de exames e consultas, consolidando uma nova frente de crescimento para laboratórios e clínicas.
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