Brasil tem sua primeira empresa de inovação psicodélica

Brasil tem sua primeira empresa de inovação psicodélica

No momento em que estudos sobre compostos psicodélicos estão em alta em várias partes do mundo, o Brasil ganha a sua primeira empresa de inovação nesse campo efervescente. A ideia da Scirama é oferecer financiamento inicial e ajuda na estruturação de produtos e terapias derivados de substâncias psicodélicas.

A revelação foi feita na Folha pelo jornalista e escritor Marcelo Coelho, autor do livro Psiconautas – Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira, que será publicado em 17 de maio pela Editora Fósforo.

Scirama nasce com a proposta de investir na estruturação de produtos e terapias derivados das propriedades já conhecidas de psicodélicos. Entre elas estão a capacidade de estimular novas conexões cerebrais (neuroplasticidade) e a ação anti-inflamatória, que poderá gerar aplicações para transtornos mentais e doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson.

No exterior, segundo Coelho, já se investiga o uso de psicodélicos até para acidentes vasculares cerebrais, anorexia e enxaqueca. Entre os alvos da Scirama estarão também protocolos para o tratamento de dependência química, em especial de álcool.

A startup lançará em breve um edital para receber propostas de pesquisadores brasileiros. De saída, a equipe espera receber ideias na área de psicoterapia com psicodélicos clássicos (ayahuasca, LSD, psilocibina) e mesmo para cultivo de organismos produtores, como os cogumelos Psilocybe. No longo prazo, aplicações para envelhecimento, não dependentes do efeito psicodélico terapêutico propriamente dito (alterações da consciência, como a chamada dissolução do ego e o aumento de empatia).

Outro setor em que a Scirama pretende inovar é o de compensações para os povos tradicionais que usam psicodélicos em rituais há séculos e legaram esse conhecimento para a ciência contemporânea. “A Scirama nasceu a partir de uma dor, o mal do século na saúde mental”, afirmou à Folha o seu criador e dirigente Marcelo Grecco, referindo-se principalmente a depressão e ansiedade.

“Isso agora vai se intensificar, com o luto pós-Covid, a dor de quem perdeu alguém ou teve a doença, e os impactos econômicos, na perda de empregos e negócios”, completou Grecco, que é também criador de The Green Hub, aceleradora na área de maconha medicinal e cânhamo que tem dez startups no portifólio.

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Substâncias psicodélicas ressurgem na medicina

Ao longo da primeira metade do século 20, estudos e o uso de substâncias psicodélicas ganharam espaço para tratar vários tipos de doenças, inclusive o alcoolismo, caso do LSD, que acabou proibido nos Estados Unidos em 1968, dando início ao preconceito com esse tipo de composto que acabou por colocar todos os psicodélicos à margem.

A partir de 1980, estudos clínicos com quase todos os compostos psicodélicos caíram no ostracismo. Ressurgiram, como lembra Coelho, a partir da virada do século e hoje entusiasmam neurocientistas e investidores, sobretudo a psilocibina dos cogumelos ‘mágicos’, por seu potencial para tratar transtornos mentais como a depressão resistente a medicamentos.

Nos últimos cinco anos, quase três mil artigos científicos foram publicados acerca do tema. Estimativas sobre o mercado mundial para psicoterapia apoiada em psicodélicos partem de US$ 100 bilhões anuais (R$ 560 bilhões), e várias empresas travam hoje uma corrida para patentear moléculas e aplicações psicodélicas.

Nos Estados Unidos, governo, universidades e empresas investiram, no primeiro semestre de 2020, US$ 250 milhões em pesquisa psicodélica. Mesmo no Brasil, houve avanços. Em novembro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso do Spravato para o tratamento da depressão grave. Segundo a Agência, o novo medicamento deverá ser administrado exclusivamente em um hospital ou numa clínica especializada e na presença de um profissional da saúde.

Spravato é um spray nasal com ação quase imediata tendo como base a molécula escetamina, variante da cetamina, uma substância psicodélica que age diretamente no sistema nervoso central e altera a função cerebral. Desenvolvido pelo Serviço de Psiquiatria do Complexo Hospitalar Universitário Professor Edgard Santos da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ele é patrocinado pela Janssen, pertencente ao grupo Johnson & Johnson.

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“O uso de substâncias psicodélicas no tratamento de patologias do sistema nervoso central vem sendo difundido em todo o mundo e tem sido, em muitos casos, a única terapia efetiva. Obviamente, essas substâncias e seu uso devem ter a liberação da Anvisa para serem utilizadas”, observa o farmacêutico e professor da pós-graduação em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica no ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, Rafael Poloni.

De acordo com Marcel Grecco, “o uso de canabis e de psicodélicos é disruptivo (revolucionário) para o setor de saúde”, aludindo aos estudos que os apontam como alternativa para as terapias existentes, que no caso de depressão não funcionam para ao menos um terço dos doentes.

“Os psicodélicos são para a psiquiatria o que os antibióticos foram para microbiologia, para o tratamento de doenças infectocontagiosas. Além da cetamina, pesquisas com psilocibina, LSD, MDMA, têm resultados impressionantes. Está acontecendo e não vai parar mesmo. É uma revolução incrível. É o maior avanço da psiquiatria nos últimos 50 anos”, revelou em entrevista recente à revista Época a doutora em psicofarmacologia, farmacêutica e bioquímica Tharcila Chaves, que estuda a cetamina há oito anos na Holanda.

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