China vira potência dos peptídeos enquanto o Brasil segue preso à fiscalização

A China fornece 40% dos insumos farmacêuticos ativos (IFAs) consumidos no mundo e já fabrica peptídeos inovadores, inclusive os da família de moléculas dos novos medicamentos contra obesidade e diabetes, em escala industrial. Só a gigante chinesa de manufatura, WuXi AppTec, fechou 2025 com mais de 100 mil litros em reatores para a síntese desses compostos. O Brasil supre apenas 5% da própria demanda de IFAs. Ainda assim, segue tratando os peptídeos como tema de fiscalização, enquanto a disputa global se decide na inovação e na produção.

Durante muito tempo, a indústria farmacêutica chinesa foi associada, principalmente, à produção de princípios ativos, medicamentos genéricos e capacidade fabril. Essa imagem está ficando ultrapassada. O país avança rapidamente na cadeia de inovação do setor, e os peptídeos estão entre os melhores exemplos dessa transformação. O movimento fica particularmente evidente no campo dos análogos de GLP-1.

Reportagens internacionais recentes mostram empresas da China competindo diretamente com gigantes ocidentais em medicamentos para obesidade e diabetes. A corrida, antes restrita a Novo Nordisk e Eli Lilly, passou a incluir biotechs chinesas que ocupam espaço relevante no desenvolvimento de novas moléculas e formulações. A própria Novo Nordisk acertou pagar US$ 200 milhões de entrada, em março de 2025, pelo agonista triplo UBT251, da United Laboratories, em acordo que pode chegar a US$ 2 bilhões.

A mudança é estrutural. A China reúne uma combinação difícil de reproduzir, com enorme mercado interno, base industrial, crescente investimento em pesquisa, disponibilidade de cientistas, cadeia de fornecedores químicos e biotecnológicos e capacidade de produção em escala. A Administração Nacional de Produtos Médicos (NMPA, na sigla em inglês) aprovou 120 novos medicamentos em 2025, primeira vez em que a marca passou de cem, e 61 deles foram registrados no país antes de qualquer outro mercado. No mesmo ano, os acordos de licenciamento de moléculas desenvolvidas na Grande China, que inclui Hong Kong, Macau e Taiwan, somaram US$ 137,7 bilhões, segundo a Reuters.

CDMOs chinesas redesenham a divisão global da inovação em peptídeos

No caso dos peptídeos, a combinação de mercado, ciência e escala pesa ainda mais. A produção dessas moléculas vai muito além de uma simples linha industrial e exige domínio de síntese, purificação, caracterização, controle de impurezas e desenvolvimento analítico. Peptídeos também apresentam desafios específicos de estabilidade e formulação. Por isso, o avanço chinês deve ser interpretado como expansão de conhecimento, além de aumento de volume.

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A existência de companhias especializadas em desenvolvimento e fabricação por contrato, as chamadas Contract Development and Manufacturing Organizations (CDMOs), permite que empresas de diferentes países utilizem a infraestrutura chinesa para criar moléculas, processos produtivos e lotes em vários estágios. O resultado é uma nova divisão internacional da inovação. Uma empresa americana pode descobrir uma molécula, uma europeia pode conduzir parte do desenvolvimento e uma CDMO chinesa pode participar da síntese, da purificação, do escalonamento e da produção.

O ritmo aparece nos números da WuXi TIDES, braço de peptídeos e oligonucleotídeos da WuXi AppTec. A receita da divisão cresceu 96% em 2025, para 11,37 bilhões de yuans (cerca de US$ 1,6 bilhão, pelo câmbio médio do ano), e o número de moléculas atendidas em desenvolvimento e fabricação aumentou 45%, segundo balanço divulgado pela companhia em 23 de março de 2026.

O Brasil ainda permanece na discussão regulatória

A fronteira tecnológica passa a se distribuir entre várias nações, e esse fenômeno interessa diretamente ao Brasil, que corre o risco de participar da revolução dos peptídeos apenas como consumidor. Enquanto outros países investem em desenvolvimento, produção e capacidade analítica, o país permanece diante de um sistema no qual a discussão regulatória frequentemente chega depois que o mercado já se transformou, acusam as entidades que representam as farmácias magistrais.

A revisão das Boas Práticas de Manipulação de Produtos Estéreis, previstas na RDC 67/2007 e aplicadas às farmácias de injetáveis, foi iniciada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 27 de fevereiro de 2025 e segue em andamento um ano e meio depois. Manter a norma desatualizada expõe pacientes a riscos sanitários evitáveis, segundo o próprio termo de abertura do processo.

O ponto central é entender a mudança de posição da China, sem qualquer postura contrária aos chineses. Conhecido como fornecedor de insumos baratos, o país passou a competir pela propriedade intelectual, pelo desenvolvimento clínico e pela inovação farmacêutica, e a corrida dos análogos de GLP-1 demonstra isso.

A Reuters destacou, em análise publicada em 22 de setembro de 2025, a crescente capacidade de empresas chinesas desafiarem as líderes globais do segmento, a partir do lançamento da mazdutida, da Innovent, na China, em julho daquele ano. O medicamento é o primeiro agonista duplo dos receptores de GLP-1 e de glucagon aprovado no mundo, segundo levantamento da PharmCube. A indústria chinesa somava entre 60 e 70 candidatos em fase 2 ou posterior na disputa direta com a semaglutida e a tirzepatida em fevereiro de 2025, de acordo com a consultoria L.E.K.

Essa competição representa uma mudança relevante no equilíbrio da indústria farmacêutica mundial, e a disputa envolve moléculas e, sobretudo, plataformas. Quem dominar a síntese de peptídeos, os métodos analíticos, os processos de purificação, as tecnologias de administração e as formas de produção em escala terá vantagem na próxima geração de terapias.

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A corrida dos peptídeos expõe a fragilidade industrial do Brasil

É nesse ponto que o Brasil precisa olhar para além da fiscalização, defendem os consultores que acompanham o mercado magistral. Uma política nacional de saúde e inovação deveria fazer algumas perguntas. Quantas empresas brasileiras dominam síntese peptídica avançada? Quantos laboratórios têm capacidade analítica para caracterizar moléculas complexas? Quantos centros conseguem executar estudos de estabilidade adequados? Quantas universidades conseguem levar uma descoberta do laboratório para um produto? E quantos desses projetos conseguem atravessar o chamado vale da morte entre descoberta e mercado?

A resposta provavelmente revela um problema de política industrial, maior do que o regulatório. O Censo Nacional de IFAs, divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em março de 2025, contou 40 empresas farmoquímicas dedicadas a insumos essenciais no país, apenas quatro a mais do que em 2013. A Nova Indústria Brasil, programa lançado pelo governo federal em janeiro de 2024, fixou a meta de ampliar de 42% para 70% a participação da produção nacional nas necessidades de medicamentos, vacinas, equipamentos e dispositivos médicos até 2033.

Peptídeos são uma oportunidade de saúde e também uma oportunidade econômica. A China percebeu isso. O Brasil ainda precisa perceber, e a Anvisa tem papel fundamental nesse processo, apontam lideranças do segmento magistral.

Regras claras atraem capital e retêm a ciência no país

Além de decidir se determinado produto chega ao mercado, uma autoridade sanitária moderna pode contribuir para estabelecer previsibilidade regulatória, um dos principais ativos de qualquer ecossistema de inovação. Empresas investem quando sabem quais dados precisarão produzir. Universidades desenvolvem tecnologias quando sabem que haverá um caminho de transferência. Investidores colocam dinheiro quando conseguem estimar o risco regulatório.

A inovação migra para onde encontra previsibilidade e leva a produção junto. É nesse contexto que o Brasil deveria observar a expansão chinesa, com o objetivo de criar competência nacional em áreas estratégicas, em vez de disputar volume com a China.

A cadeia dos peptídeos pode envolver pesquisa básica, síntese química, biotecnologia, engenharia de processos, controle de qualidade, formulação, dispositivos de administração e desenvolvimento clínico. Quanto mais sofisticada ela se torna, mais importante fica a existência de uma regulação capaz de acompanhar a tecnologia.

O risco brasileiro é duplo. De um lado, está a importação de produtos acabados, com perda de capacidade produtiva. De outro, a importação de matérias-primas e tecnologias sem construção de conhecimento nacional. Enquanto isso, a demanda cresce, e quando ela avança mais rapidamente que a oferta regulada, surge o mercado paralelo, afirmam proprietários de farmácias de manipulação, que apontam que essa equação já apareceu nos análogos de GLP-1.

Só entre janeiro e o início de abril de 2026, a Anvisa editou dez ações de proibição de importação, comércio e uso de produtos irregulares com agonistas de GLP-1, segundo balanço divulgado pela própria Agência.

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Europa, Canadá e Estados Unidos reagem ao avanço dos peptídeos

A Europa enfrentou escassez de agonistas de GLP-1 e aumento extraordinário de demanda a partir de 2022. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) passou a monitorar a utilização desses produtos e seus impactos sobre o sistema de saúde e encomendou à rede DARWIN EU um estudo com dados de mundo real sobre o uso das substâncias, conforme comunicado de 26 de junho de 2024.

O Canadá adotou uma postura de alerta diante de peptídeos injetáveis não autorizados vendidos pela internet. A Health Canada, autoridade sanitária do país, listou 15 dessas substâncias, entre elas BPC-157, TB-500 e retatrutida, em aviso publicado em 9 de abril de 2026. Em 29 de julho, anunciou ter obtido na Justiça de Quebec uma ordem permanente que impede a varejista on-line Canlab Research de vender esses produtos.

Os Estados Unidos discutem como lidar com determinadas moléculas dentro do compounding. O Food and Drug Administration (FDA) mantém desde setembro de 2025 uma lista verde de fabricantes de insumos de GLP-1 liberados para importação, entre eles empresas chinesas.

A agência americana também propôs, em 30 de abril de 2026, excluir semaglutida, tirzepatida e liraglutida da lista de substâncias permitidas às outsourcing facilities, centrais que preparam medicamentos em larga escala. Em julho, o comitê consultivo de manipulação do FDA recomendou liberar seis peptídeos, como BPC-157 e TB-500, para preparações individualizadas em farmácias, e a palavra final cabe ao órgão.

Cada autoridade desenha a própria resposta, e o Brasil precisa construir a sua. Ela deveria considerar que o futuro dos peptídeos será decidido nos consultórios e também em fábricas, universidades, centros de pesquisa, agências reguladoras e políticas públicas. A China entendeu isso.

Resta saber se o Brasil também entenderá. A próxima disputa farmacêutica vai além da venda do medicamento e passa pela capacidade de produzir a ciência, a molécula e a tecnologia por trás dele.

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