Em dez dias, uma das patentes mais valiosas da indústria farmacêutica recente perde proteção no Brasil. No dia 20 de março de 2026, cai a patente da semaglutida, molécula que impulsionou uma revolução global no tratamento da obesidade e do diabetes, e que transformou a dinamarquesa Novo Nordisk em uma das empresas mais valiosas da Europa.
A mudança marca o início de uma nova fase para o mercado brasileiro de medicamentos baseados em análogos de GLP-1, a classe de fármacos que inclui produtos como Ozempic e Mounjaro. Hoje, esses remédios movimentam cerca de R$ 10 bilhões por ano no país, mas a expectativa do setor é que o mercado dobre de tamanho e alcance R$ 20 bilhões já em 2026,impulsionado pela entrada de versões similares e genéricas.
A lógica é conhecida na indústria farmacêutica: quando uma patente cai, a concorrência se amplia rapidamente. No caso da semaglutida, o movimento tende a ser ainda mais intenso porque o medicamento se tornou um fenômeno cultural além de clínico. Inicialmente desenvolvido para diabetes, ele ganhou enorme popularidade como tratamento para perda de peso, impulsionado por estudos que demonstraram reduções significativas no peso corporal.
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Até agora, o mercado brasileiro era dominado por multinacionais. A Novo Nordisk lidera com quatro medicamentos importantes da categoria: Ozempic e Wegovy, ambos baseados em semaglutida, além de Victoza e Saxenda, que usam a molécula liraglutida. Os preços refletem essa exclusividade. Uma caixa mensal pode custar entre R$ 825 e R$ 1.699, dependendo da dose e da indicação.
A americana Eli Lilly também conquistou espaço rapidamente com sua própria inovação na classe de medicamentos metabólicos. O Mounjaro, baseado em tirzepatida — uma molécula mais recente que atua em dois receptores hormonais, tornou-se um dos produtos de crescimento mais rápido da categoria. No Brasil, ele pode custar entre R$ 1.407 e R$ 2.384 por mês, dependendo da dosagem.
Essa configuração começa a mudar agora. Nos bastidores da indústria farmacêutica brasileira, laboratórios se preparam há meses para lançar versões próprias da semaglutida assim que a proteção patentária terminar.
Entre os primeiros movimentos estão os da EMS, que já entrou no segmento de análogos de GLP-1 em 2025 com dois medicamentos baseados em liraglutida: Olire, voltado ao tratamento da obesidade, e Lirux, indicado para diabetes. Com a patente da semaglutida prestes a expirar, a empresa também planeja lançar sua própria versão da molécula.
Outros grupos nacionais seguem o mesmo caminho. Hypera Pharma, Cimed, Biomm e Prati-Donaduzzi anunciaram projetos para lançar semaglutida após a abertura regulatória. A Eurofarma, por sua vez, opera em parceria com a própria Novo Nordisk para ampliar a distribuição de alguns produtos no país.
A disputa tende a ser dominada inicialmente pelo preço. Um relatório do Itaú BBA estima que a chegada de genéricos pode provocar queda de até 30% nos preços já no primeiro ano e até 50% em cinco anos, à medida que novos fabricantes entram no mercado.
Mesmo assim, a diferença entre custo e preço final deve continuar significativa. Um estudo da Universidade de Liverpool estimou que a produção de semaglutida genérica custaria cerca de US$ 3 por mês, o equivalente a aproximadamente R$ 17. No varejo, porém, os medicamentos continuarão sendo vendidos por valores muito superiores, refletindo custos de desenvolvimento, marketing e distribuição.
Além da disputa por preço, o setor também enfrenta uma corrida tecnológica. Enquanto a semaglutida se torna mais acessível, novas gerações de medicamentos já estão em desenvolvimento.
A Eli Lilly trabalha na retatrutida, um medicamento que atua em três receptores hormonais ao mesmo tempo e promete resultados ainda mais expressivos na perda de peso. Ele ainda não foi aprovado por grandes reguladores, mas já é fabricado pelo laboratório paraguaio Éticos.
Esse movimento cria um ciclo típico da indústria farmacêutica: enquanto uma geração de medicamentos se torna mais acessível, outra começa a disputar o topo da inovação — e dos preços.
No Brasil, o resultado mais imediato da queda da patente será uma intensificação da concorrência. O Mounjaro, por exemplo, já conquistou 57% de participação em valor no quarto trimestre de 2025, enquanto o Ozempic respondeu reduzindo preços em cerca de 19,6%.
Com a chegada dos genéricos de semaglutida ao longo de 2026, a guerra de preços tende a se aprofundar. Para o consumidor, isso significa algo raro no mercado farmacêutico: um tratamento altamente demandado que começa a se tornar gradualmente mais acessível.
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