Pesquisa da USP, coordenada por farmacêutica, desenvolve nanotecnologia para tratar doenças de pele

Pesquisa da USP, coordenada por farmacêutica, desenvolve nanotecnologia para tratar doenças de pele

Uma pesquisa coordenada pela farmacêutica Maria Vitória Lopes Badra Bentley, da Universidade de São Paulo (USP), desenvolveu uma plataforma de nanotecnologia capaz de levar moléculas terapêuticas diretamente às células da pele. A inovação busca tratar doenças crônicas como psoríase, vitiligo e câncer de pele por meio de nanopartículas que transportam RNA de interferência para silenciar genes ligados à inflamação.

Na pesquisa e no desenvolvimento de novos medicamentos, o farmacêutico pode ocupar uma posição decisiva: transformar conhecimento científico em tecnologias capazes de chegar ao paciente. Esse trabalho envolve escolha de alvos terapêuticos, desenvolvimento de formulações, caracterização de sistemas de liberação, controle de qualidade, validação, estabilidade e translação da bancada para a indústria.

A psoríase é uma doença crônica, inflamatória, imunomediada e de base genética. Apesar dos avanços terapêuticos, ainda representa um grande desafio clínico, porque pode causar lesões severas, desconforto físico, impacto psicológico, estigma social e necessidade de tratamento contínuo.

A busca por terapias mais precisas acompanha a história da doença há muito tempo. Medicamentos tópicos, imunossupressores, fototerapia e biológicos mudaram o cuidado, mas a indústria segue buscando alternativas capazes de agir de forma mais direcionada, reduzir efeitos sistêmicos e ampliar opções para pacientes com doenças cutâneas complexas.

Tecnologia usa RNA para silenciar genes

A plataforma desenvolvida pelo grupo da USP usa RNA de interferência, conhecido como siRNA, para agir diretamente sobre o RNA mensageiro responsável pela produção de proteínas inflamatórias.

Em termos simples, o DNA contém as instruções para a produção de proteínas, e o RNA mensageiro leva essas instruções até a célula. O RNA de interferência atua antes que a proteína indesejada seja produzida, degradando a mensagem que levaria à fabricação de moléculas associadas ao processo inflamatório.

No caso da psoríase, um dos alvos é o TNF-alfa, uma citocina pró-inflamatória envolvida na resposta imunológica exagerada que caracteriza a doença. A ideia é reduzir os mediadores inflamatórios a níveis próximos aos de células saudáveis, sem depender de medicamentos de ação sistêmica.

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“A gente entende quais são os alvos e usa um RNA complementar específico para silenciar a produção dessa citocina”, explicou Bentley.

A pesquisadora resume a proposta como uma nanomedicina de precisão. “Eu tenho um alvo específico e um RNA complementar para silenciar aquele gene que está superexpresso naquela doença”, disse.

Inovação nasceu na Escola de Ciências Farmacêuticas da USP

A pesquisa é conduzida no Nanogeneskin Dr. Bentley’s Lab, parte da Escola de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. O grupo está vinculado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Nanotecnologia Farmacêutica, financiado pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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A coordenadora do projeto, Drª Maria Vitória Lopes Badra Bentley, é farmacêutica, doutora em Fármacos e Medicamentos pela Universidade de São Paulo e realizou pós-doutorado na University of Manchester, na Inglaterra. Sua trajetória combina pesquisa farmacêutica, nanotecnologia, sistemas de liberação e desenvolvimento de plataformas terapêuticas.

À Agência FAPESP, Bentley explicou que o grupo trabalha há duas décadas no desenvolvimento e caracterização de nanopartículas lipídicas para liberar fármacos e RNAs de interferência.

“Iniciamos há 20 anos esse trabalho de pesquisa e adquirimos ao longo desse tempo experiência na obtenção e caracterização de nanopartículas lipídicas para liberar não só fármacos, mas também os RNAs de interferência, com o objetivo de tratar doenças cutâneas crônicas, como a psoríase, o câncer de pele e o vitiligo”, afirmou.

O caso reforça como a pesquisa farmacêutica pode estar na origem de tecnologias de alta complexidade, especialmente em áreas como nanotecnologia, RNA terapêutico e liberação controlada.

Nanopartículas protegem moléculas frágeis

Um dos grandes desafios da tecnologia está em levar o RNA até as células da pele. Essas moléculas são frágeis, podem ser degradadas rapidamente por enzimas do organismo e ainda precisam atravessar a barreira cutânea, que existe justamente para impedir a entrada de substâncias externas.

A solução encontrada pelo grupo foi desenvolver nanopartículas de cristais líquidos, estruturas formadas por lipídios com organização interna ordenada, mas com fluidez característica dos líquidos. Essa arquitetura permite encapsular o material genético, protegê-lo da degradação e facilitar sua penetração na pele.

Os pesquisadores demonstraram que essas nanopartículas conseguem carregar RNA terapêutico, favorecer o silenciamento gênico e potencializar a liberação intracelular por meio de métodos físicos, como a fotoativação.

Também foi demonstrada a possibilidade de carregar simultaneamente múltiplos RNAs e até fármacos anti-inflamatórios convencionais em uma mesma nanopartícula. Esse ponto é especialmente relevante para a psoríase, porque a doença envolve uma cascata inflamatória complexa, com vários alvos terapêuticos possíveis.

“Temos uma nanopartícula funcional. Como a psoríase é muito complexa e tem vários alvos, o nosso objetivo é carrear RNAs para diferentes alvos e, às vezes, também um fármaco anti-inflamatório”, afirmou a pesquisadora.

Resultados foram validados em células e animais

Os resultados da pesquisa foram validados em modelos celulares e em animais com lesões similares às da doença, induzidas experimentalmente. Esses achados indicam que a tecnologia tem potencial para atuar no silenciamento de genes envolvidos na inflamação cutânea.

Ainda assim, a plataforma precisa avançar para novas etapas antes de chegar ao uso clínico. Estudos em células e animais são importantes para demonstrar viabilidade, segurança inicial e mecanismo de ação, mas não substituem ensaios clínicos em humanos.

A própria equipe já trabalha pensando na translação da tecnologia para produto. O grupo possui duas patentes depositadas e desenvolve processos de escalonamento industrial, incluindo a liofilização, técnica que remove água das formulações por congelamento a vácuo para aumentar estabilidade, prazo de validade e viabilidade comercial.

“Se deu certo, como a gente vai viabilizar isso em forma de produto?”, resume Bentley.

Essa pergunta é central para a pesquisa farmacêutica. Uma tecnologia promissora precisa deixar de ser apenas prova de conceito e se tornar formulação estável, reprodutível, segura, escalável e compatível com exigências regulatórias.

Psoríase afeta milhões de pessoas

A psoríase afeta entre 2% e 3% da população mundial, cerca de 190 milhões de pessoas. No Brasil, aproximadamente 5 milhões convivem com a doença.

Trata-se de uma condição crônica, imunomediada e genética, provocada por resposta exagerada do próprio sistema imunológico. Ela se manifesta por lesões inflamatórias na pele, que podem causar descamação, vermelhidão, coceira, dor, fissuras e impacto importante na qualidade de vida.

Além da pele, a psoríase pode estar associada a outras condições, como artrite psoriásica, doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes, depressão e ansiedade. Por isso, o tratamento exige atenção contínua e, em muitos casos, abordagem multidisciplinar.

Os tratamentos disponíveis melhoraram muito nas últimas décadas, especialmente com o avanço dos medicamentos biológicos. Mesmo assim, nem todos os pacientes respondem da mesma forma, e terapias sistêmicas podem ter custo elevado, riscos de eventos adversos e necessidade de monitoramento.

É nesse contexto que uma tecnologia tópica, direcionada e baseada em silenciamento gênico desperta interesse. A promessa não é apenas tratar a lesão, mas atuar de forma precisa sobre mecanismos envolvidos na doença.

Plataforma também mira vitiligo e vacinas

Embora a psoríase seja um dos principais focos, o escopo do grupo vai além dela. Pesquisas em andamento aplicam a mesma plataforma ao vitiligo, doença caracterizada pela destruição dos melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina.

A equipe da USP já possui uma patente envolvendo RNA e nanopartículas para essa área. Também há estudos voltados à cicatrização de feridas crônicas, outro problema de saúde com grande necessidade de novas soluções terapêuticas.

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O grupo também trabalha no desenvolvimento de nanoestruturas para entrega de mRNA, o RNA mensageiro usado para instruir células a produzirem proteínas específicas. Esse tipo de tecnologia ganhou grande visibilidade com as vacinas contra Covid-19 da Pfizer e da Moderna.

Nos modelos animais testados pela equipe, animais imunizados com a formulação e posteriormente expostos a células cancerosas apresentaram regressão ou não crescimento dos tumores. A tecnologia já despertou interesse de empresas farmacêuticas.

Essa amplitude mostra que a plataforma não se limita a uma doença. Ela pode se tornar uma base tecnológica para diferentes aplicações, desde doenças de pele até vacinas experimentais contra câncer.

Pesquisa farmacêutica precisa chegar ao paciente

A inovação coordenada por Maria Vitória Bentley mostra como a pesquisa farmacêutica brasileira pode gerar tecnologias de alta complexidade. Mas também evidencia um desafio conhecido: transformar ciência em produto disponível para a população.

Esse caminho passa por desenvolvimento analítico, formulação, controle de qualidade, estudos de estabilidade, validação de métodos, escalonamento industrial, proteção intelectual, ensaios clínicos, documentação regulatória e parceria com empresas capazes de produzir em escala.

A presença de empresas interessadas em licenciar a tecnologia indica que o projeto já ultrapassou a fase de curiosidade acadêmica. O próximo desafio é construir o caminho de translação clínica, levando a descoberta do laboratório até estudos em humanos e, futuramente, ao mercado.

Nesse percurso, o farmacêutico tem papel estratégico. É ele quem domina a linguagem entre molécula, formulação, processo, qualidade, segurança, eficácia e produto final.

Inovação exige farmacêuticos preparados

A pesquisa da USP reforça que o farmacêutico pode estar no centro do desenvolvimento de terapias inovadoras. Nanotecnologia, RNA terapêutico, sistemas de liberação, medicamentos biológicos e plataformas de precisão exigem profissionais capazes de unir ciência, tecnologia e controle farmacêutico.

A demanda por esses profissionais cresce porque a indústria busca soluções mais eficientes, mais seguras e mais direcionadas para doenças crônicas e complexas. Levar uma inovação até a população exige muito mais do que uma boa ideia: exige método, domínio técnico e capacidade de validar cada etapa do desenvolvimento.

A pós-graduação em P&D Analítico e Controle de Qualidade na Indústria Farmacêutica do ICTQ prepara o farmacêutico para atuar nesse campo, com foco em técnicas analíticas, instrumentação, pré-formulação, formulação, controle de qualidade e validação de processos.

O caso do Nanogeneskin Dr. Bentley’s Lab mostra que a farmácia brasileira também produz inovação de fronteira. Para participar desse movimento, o farmacêutico precisa desenvolver competências que permitam transformar pesquisa em solução terapêutica real.

Conheça o programa completo da pós-graduação, clicando aqui.

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