A Fiocruz anunciou uma parceria com a Merck e a Nortec Química para produzir no Brasil a cladribina oral, medicamento utilizado no tratamento da esclerose múltipla remitente-recorrente. Comercializado como Mavenclad, o fármaco passará a ser fabricado em território nacional e distribuído ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Esse tipo de iniciativa mostra para farmacêutico como a produção de novos medicamentos depende de conhecimento técnico em pesquisa, desenvolvimento, formulação, controle de qualidade, validação, estabilidade, documentação e transferência de tecnologia. Quando um tratamento de alta complexidade passa a ser produzido no País, há uma cadeia inteira de trabalho que precisa garantir segurança, eficácia, reprodutibilidade e acesso.
Mesmo com oferta pelo SUS, o tratamento da esclerose múltipla ainda enfrenta obstáculos. Medicamentos de alta complexidade costumam ter custo elevado, exigem logística estruturada, acompanhamento especializado e fornecimento contínuo. No caso da cladribina oral, o custo médio do tratamento pode chegar perto de R$ 140 mil em cinco anos por paciente, o que torna a produção nacional uma estratégia importante para reduzir dependência externa e ampliar a sustentabilidade do acesso.
Acordo fortalece produção nacional
A parceria envolve a Fiocruz, por meio do Instituto de Tecnologia em Fármacos, Farmanguinhos, a Merck e a Nortec Química. O objetivo é viabilizar a produção nacional da cladribina oral, por meio de transferência de tecnologia, dentro das estratégias do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, o Ceis.
O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, afirmou que a iniciativa integra a estratégia da instituição de ampliar a carteira de produtos ofertados ao SUS e estreitar laços tecnológicos com parceiros nacionais e internacionais. Segundo ele, trata-se de uma ação voltada ao acesso a um medicamento contra a esclerose múltipla.
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Moreira também destacou a importância estratégica de um laboratório público para consolidar o Ceis, garantir a sustentabilidade dos programas do SUS, gerar empregos especializados, reduzir preços e manter a qualidade dos produtos.
A cladribina será o primeiro medicamento de Farmanguinhos voltado ao tratamento da esclerose múltipla. A entrada desse produto no portfólio marca uma expansão relevante para o instituto, que já atua em medicamentos voltados a doenças negligenciadas e produtos de alto valor agregado.
Medicamento tem uso oral e efeito prolongado
A cladribina oral é considerada uma terapia inovadora por ser o primeiro tratamento oral de curta duração com eficácia prolongada para a esclerose múltipla remitente-recorrente, forma mais comum da doença.
O esquema terapêutico prevê administração por até 20 dias ao longo de dois anos de tratamento, com benefício clínico sustentado por até quatro anos. Esse modelo difere de terapias que exigem uso frequente ou aplicações contínuas, o que pode mudar a rotina de tratamento de muitos pacientes.
A cladribina atua sobre células do sistema imune envolvidas na atividade inflamatória da esclerose múltipla. Ao modular essa resposta, o medicamento contribui para reduzir surtos e retardar a progressão da doença em pacientes com indicação adequada.
O medicamento também está incluído na Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde, o que reforça sua relevância terapêutica no tratamento da doença.
Merck e Nortec entram na transferência de tecnologia
A Merck tem histórico de atuação na área de esclerose múltipla e já mantém outras parcerias com a Fiocruz no Brasil. Uma delas envolve a betainterferona 1a, também utilizada no tratamento da doença, em parceria com Bio-Manguinhos/Fiocruz e Bionovis.
A diretora-executiva da Merck Brasil, Maria Sol Quibel, afirmou que a expertise da empresa em colaborar com o setor público resulta de uma trajetória centenária no País, marcada por inovação e compromisso com a saúde. Segundo ela, a companhia é pioneira no tratamento da esclerose múltipla, e a nova transferência de tecnologia reforça esse propósito.
A Nortec Química também terá papel importante na parceria. A empresa tem histórico de cooperação com a Fiocruz na produção nacional de Insumos Farmacêuticos Ativos, os IFAs, essenciais para o SUS.
O diretor-presidente da Nortec, Marcelo Mansur, destacou que a produção nacional de IFAs garante autonomia ao País no abastecimento de produtos essenciais, gera empregos e aumenta a densidade tecnológica da indústria química brasileira. Segundo ele, a parceria com a Merck abre novas portas de pesquisa e desenvolvimento.
Produção nacional reduz dependência externa
A produção nacional de medicamentos estratégicos é uma das principais formas de fortalecer o acesso no SUS. Quando o País depende exclusivamente de importações, fica mais vulnerável a variações cambiais, disputas internacionais, gargalos logísticos, crises de abastecimento e mudanças de preço.
No caso de doenças crônicas e complexas, como a esclerose múltipla, essa vulnerabilidade pesa ainda mais. O tratamento precisa ser contínuo, planejado e sustentado por uma rede capaz de garantir fornecimento regular. Qualquer instabilidade pode afetar pacientes, serviços de saúde e a própria organização dos programas públicos.
A transferência de tecnologia busca reduzir essa dependência. Ao trazer etapas produtivas para o Brasil, o acordo fortalece a capacidade nacional de fabricar medicamentos de alto valor agregado e amplia o domínio técnico sobre produtos estratégicos.
Esse movimento também gera demanda por profissionais qualificados. A produção de um medicamento como a cladribina oral exige domínio de processos, métodos analíticos, controle de qualidade, estabilidade, validação, documentação técnica, boas práticas e capacidade de acompanhar a transição entre tecnologia importada e produção nacional.
Desenvolvimento exige farmacêuticos qualificados
A parceria entre Fiocruz, Merck e Nortec mostra que o desenvolvimento e a produção de novos medicamentos não dependem apenas de investimento institucional. Dependem também de profissionais preparados para atuar nas etapas que transformam conhecimento científico em produto farmacêutico acessível à população.
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O farmacêutico tem papel importante nesse processo. Sua atuação pode envolver pesquisa e desenvolvimento, pré-formulação, formulação, desenvolvimento analítico, controle de qualidade, validação de processos, estudos de estabilidade, qualificação de fornecedores, documentação técnica e acompanhamento regulatório.
Em medicamentos de alta complexidade, essas competências são ainda mais decisivas. Pequenas falhas em método, processo, estabilidade, especificação ou documentação podem comprometer qualidade, atrasar produção, gerar exigências regulatórias e impactar o acesso do paciente ao tratamento.
Por isso, a ampliação da produção nacional abre oportunidades para farmacêuticos que desejam atuar em pesquisa, desenvolvimento e qualidade na indústria. À medida que o Brasil busca reduzir dependência externa e fortalecer sua capacidade produtiva, cresce a demanda por profissionais capazes de sustentar tecnicamente esses projetos.
Qualificação conecta inovação e acesso
A produção nacional da cladribina oral reforça uma tendência importante: o País precisa de mais farmacêuticos preparados para participar do desenvolvimento de medicamentos inovadores, da transferência de tecnologia e da estruturação de processos produtivos com qualidade.
A pós-graduação em P&D Analítico e Controle de Qualidade na Indústria Farmacêutica do ICTQ se conecta diretamente a essa demanda. A formação prepara o farmacêutico para atuar com técnicas analíticas, instrumentação, pré-formulação, formulação, controle de qualidade e validação de processos, competências essenciais para quem deseja participar da pesquisa e do desenvolvimento de novos medicamentos.
Iniciativas como a parceria entre Fiocruz, Merck e Nortec mostram que produzir medicamentos estratégicos no Brasil é mais do que uma pauta industrial. É uma forma de ampliar acesso, reduzir custos, gerar autonomia sanitária e transformar conhecimento técnico em benefício real para a população.
Para que isso aconteça, o País precisa de estrutura, investimento e profissionais qualificados. O farmacêutico que deseja atender a essa demanda precisa estar preparado para atuar entre a ciência, a produção, a qualidade e a inovação.
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