Quarta-feira, 9 de julho de 2014
Com investimentos de quase US$ 10 bilhões em pesquisa e desenvolvimento, a Novartis criou um tratamento que é a esperança de milhões de pacientes que sofrem com a doença.
Nas últimas décadas, na tentativa de curar os cerca de 14 milhões de pessoas diagnosticadas anualmente com câncer, a medicina mundial tem feito uso de um arsenal enorme de exames sofisticados, procedimentos cirúrgicos cada vez mais precisos e medicamentos bastante avançados. Por maior que seja a evolução, milhões de pacientes ainda morrem por ano, em todo o globo, por fatores relacionados à doença. Os motivos são variados: a detecção tardia, a agressividade dos tumores e as limitações dos tratamentos disponíveis. Agora, no entanto, um feixe de luz surge da associação entre a indústria farmacêutica Novartis, universidades e hospitais americanos. Um procedimento chamado de terapia celular CAR-T passou a despontar como uma nova estratégia para alguns tipos de câncer.
A terapia celular não envolve bisturis nem medicamentos citotóxicos como elemento central do procedimento. Basicamente, ela consiste na retirada de células T do paciente, que são enviadas a um laboratório e geneticamente modificadas para expressar um receptor capaz de reconhecer células tumorais. Depois desse processo, as células são multiplicadas e reinfundidas no paciente. A Novartis e a Universidade da Pensilvânia estabeleceram, em 2012, uma parceria global para desenvolver e comercializar terapias CAR-T.
Ou seja, quem se encarrega de atacar o câncer são as próprias células T reprogramadas. “É uma maneira totalmente nova de se tratar um tumor. Um novo aprendizado inclusive para nós. Uma avenida se abriu e nos ensinou que, pelo menos em alguns tipos de câncer, funciona maravilhosamente bem. Se todo câncer poderá ser tratado assim? Ainda não sabemos. Estamos buscando respostas”, afirma Adib Jacob, presidente da Novartis Brasil.
O novo procedimento é considerado, até entre os mais entendidos, de vanguarda. “Semana passada, anunciamos a criação de uma nova divisão chamada Cell and Gene Therapy. Isso significa que estamos indo para outro planeta. Já entendemos bem o planeta Terra, agora estamos desbravando um outro mundo que não será mais entregue em uma caixinha, mas trará uma nova maneira de diagnosticar, produzir e comercializar”, explica Jacob.
O caso mais emblemático de todos é o da pequena Emily Whitehead, primeira criança a receber a terapia CAR-T para leucemia linfoblástica aguda. Poucos dias depois de completar 5 anos, essa americana foi diagnosticada com leucemia linfoide aguda. O tratamento convencional não conseguiu controlar definitivamente a doença e, após recaídas sucessivas, ela passou a fazer parte de um tratamento experimental.
Certa quantidade de sangue foi retirada de seu corpo, os glóbulos brancos foram separados e os cientistas da Universidade da Pensilvânia modificaram geneticamente suas células T para que reconhecessem as células tumorais. Feito isso, elas foram reinjetadas no corpo da menina.
O tratamento provocou uma intensa resposta imunológica, e Emily precisou ser hospitalizada. Posteriormente, sua medula óssea foi examinada e não havia sinais detectáveis da leucemia.
Foi assim que Emily se tornou um dos casos mais conhecidos da terapia celular CAR-T. Sua experiência contribuiu para o desenvolvimento de protocolos de controle de toxicidades e para o avanço dessa tecnologia.
A grande missão de Joseph Jimenez, então CEO mundial da Novartis, era ampliar o desenvolvimento dessas terapias. Além de representar uma nova frente terapêutica, a aposta na terapia celular também poderia transformar o modelo de atuação da indústria farmacêutica, já que cada tratamento é produzido individualmente a partir das células do próprio paciente.
Apesar da vontade de colocar rapidamente esse tratamento no mercado, ainda havia grandes desafios regulatórios, produtivos e logísticos. Era necessário realizar estudos clínicos, estruturar unidades de fabricação e criar processos específicos para receber, modificar e devolver as células aos centros de tratamento.
Os avanços na Universidade da Pensilvânia apontaram resultados promissores. Em um estudo publicado no New England Journal of Medicine, 27 de 30 crianças e adultos com leucemia linfoblástica aguda recidivada ou refratária atingiram remissão completa após receber CTL019, uma taxa de 90%.
Antes de estourar o champanhe, no entanto, é preciso pôr os pés no chão. Apesar das muitas esperanças que surgem no horizonte, já é sabido que os obstáculos são igualmente grandes. Entre eles estão os efeitos adversos, a necessidade de produção personalizada, os custos elevados e a avaliação da eficácia em outros tipos de tumores.
A Novartis teve de preparar uma estrutura para fabricar tratamentos individualizados e aperfeiçoar formas de limitar os efeitos colaterais. Como parte dessa estratégia, a companhia adquiriu da Dendreon, em 2012, uma instalação de produção de terapias celulares em Morris Plains, nos Estados Unidos, por US$ 43 milhões.
Há também o caso de Douglas Olson, diagnosticado com leucemia linfocítica crônica e submetido à terapia experimental após a doença deixar de responder adequadamente aos tratamentos disponíveis. O resultado foi publicado no New England Journal of Medicine em 2011, mostrando expansão das células T modificadas e remissão completa no paciente tratado.
O estudo tornou-se um dos marcos iniciais da terapia CAR-T e ajudou a ampliar o interesse científico e empresarial pela tecnologia.
A Novartis conseguiu avançar nessa área graças à colaboração com pesquisadores liderados por Carl June, da Universidade da Pensilvânia. A parceria firmada em 2012 permitiu acelerar pesquisas, desenvolvimento clínico e estruturação da produção das terapias celulares.
O desafio, desde então, passou a ser transformar resultados experimentais promissores em tratamentos produzidos de forma segura, reproduzível e acessível. Embora ainda existam limitações, a terapia CAR-T abriu uma nova frente no tratamento de alguns cânceres hematológicos e passou a integrar uma das áreas mais avançadas da oncologia moderna.
Nota editorial: Este conteúdo foi produzido originalmente pela equipe de jornalismo e conteúdos do ICTQ, com autoria de Marcus Andrade e revisão técnica do Diretor Acadêmico Ismael Rosa, CRF-GO 7311.




