Terapia gênica avança e abre novas possibilidades no tratamento de doenças

Sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Por muito tempo, falar em terapia genética significava adentrar um terreno de pura experimentação da medicina, algo para beneficiar as gerações futuras. Agora esse futuro deixa de ser remoto. Chegou ao mercado o primeiro medicamento de terapia gênica aprovado na União Europeia, um marco na história da medicina. Trata-se do Glybera (alipogene tiparvovec), autorizado em 2012 para pacientes adultos com deficiência familiar de lipoproteína lipase e episódios graves ou recorrentes de pancreatite.

O medicamento representou uma nova possibilidade para pessoas com uma doença genética rara, caracterizada por alterações no gene responsável pela produção da enzima lipoproteína lipase, necessária para a quebra de gorduras. Sem quantidade suficiente dessa enzima, os pacientes apresentam maior risco de episódios de pancreatite. Até então, o manejo da doença dependia principalmente de uma dieta com forte restrição de gorduras.

O tratamento utiliza cópias funcionais do gene da lipoproteína lipase para permitir que células musculares produzam a enzima. É o princípio da terapia gênica. Dito assim, parece um conceito simples. Mas sua concretização sempre foi um desafio. Para concluir o desenvolvimento do Glybera foram anos de trabalho da companhia de biotecnologia holandesa uniQure. Isso porque a introdução de material genético funcional envolve um processo complexo. Primeiro, é preciso encontrar o que os cientistas chamam de “veículo”, o meio pelo qual o material genético será levado até o interior das células. Uma das estratégias mais utilizadas é empregar vírus geneticamente modificados como vetores.

Uma das questões mais complicadas, porém, é fazer com que o vetor entregue o gene desejado às células de forma eficaz e segura. Entre os vetores mais estudados estão os vírus adeno-associados. O Glybera utilizava um vetor viral adeno-associado para levar cópias funcionais do gene da lipoproteína lipase às células musculares.

Jörn Aldag, executivo que coordenou o estudo, afirmou à época que o tratamento representava um importante avanço. No mundo científico, a conquista foi comemorada. A aprovação do Glybera ajudou a demonstrar que terapias baseadas na transferência de genes poderiam ultrapassar o campo experimental e chegar à prática clínica.

Em um contexto mais amplo, a aprovação significou a abertura de uma nova fronteira para a terapia gênica. Outras doenças genéticas passaram a ser investigadas utilizando estratégias semelhantes. Um exemplo importante é a terapia gênica para hemofilia B com vetor AAV e expressão do fator IX, que demonstrou aumento persistente da atividade do fator IX em pacientes com a forma grave da doença.

Nos laboratórios, há uma profusão de testes clínicos usando a manipulação genética a nosso favor. Os genes introduzidos podem ter propósitos diferentes. Entre outras funções, podem fazer com que células produzam proteínas terapêuticas, corrigir alterações genéticas ou modificar respostas do sistema imunológico.

Em um estudo clínico de terapia gênica para doença de Parkinson, pacientes receberam um vetor AAV2 contendo o gene da glutamato descarboxilase. No grupo tratado, a melhora dos sintomas medida pela escala UPDRS foi de aproximadamente 23%, enquanto o grupo submetido ao procedimento simulado apresentou melhora de cerca de 13%.

O mesmo panorama começou a ser observado em relação ao HIV. Pesquisadores da Universidade Stanford demonstraram em laboratório que era possível modificar geneticamente células T para aumentar sua resistência à infecção pelo HIV, utilizando edição gênica e fatores de restrição antiviral.

Outra linha de pesquisa buscou utilizar genes responsáveis pela produção de anticorpos contra o HIV. Cientistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia demonstraram, em modelos animais, que a transferência de genes capazes de produzir anticorpos neutralizantes poderia proteger contra a infecção pelo HIV.

Outra enfermidade na qual a terapia gênica passou a ser investigada é o diabetes. Diferentes grupos científicos estudaram maneiras de modificar células ou tecidos para melhorar a produção, a liberação ou a ação da insulina, embora grande parte dessas abordagens ainda estivesse, naquele período, restrita a modelos experimentais.

No Brasil, também começaram a ser discutidas e investigadas estratégias de terapia gênica para doenças como a hemofilia B, uma doença genética caracterizada pela deficiência do fator IX da coagulação.

Também há esperanças no tratamento do câncer. Uma das estratégias consiste em utilizar vírus geneticamente modificados para atingir células tumorais e, ao mesmo tempo, estimular uma resposta imunológica contra o câncer. Outras abordagens procuram modificar geneticamente células do próprio sistema imunológico para reconhecer e destruir tumores.

No campo da cardiologia, as experiências são igualmente diversas. As estratégias estudadas incluem o uso de terapia gênica para melhorar a função cardíaca após lesões ou insuficiência cardíaca. Pesquisadores da Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai demonstraram em modelos animais que a transferência do gene SUMO1 melhorou parâmetros da função cardíaca em casos de insuficiência cardíaca.

Apesar do sucesso desses recursos, algumas ponderações são necessárias. Permanecem desafios relacionados à produção em larga escala de vetores, ao custo dos tratamentos, à resposta imunológica e à necessidade de garantir que o material genético introduzido apresente atividade adequada e segura. Mesmo assim, os avanços obtidos demonstram como a terapia gênica passou de uma possibilidade essencialmente experimental para uma nova plataforma de tratamento de diferentes doenças.

Fonte: Revista ISTOÉ

Nota editorial: Este conteúdo foi produzido originalmente pela equipe de jornalismo e conteúdos do ICTQ, com autoria de Marcus Andrade e revisão técnica do Diretor Acadêmico Ismael Rosa, CRF-GO 7311.

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