Pílula anticoncepcional transforma o planejamento familiar e amplia a autonomia feminina

Segunda-feira, 21 de setembro de 2015

“Quando eu era criança, eu e meus irmãos vivíamos correndo e brincando pela rua com meus primos. Lembro-me de uma época em que éramos, ao todo, 32 crianças, entre 3 e 15 anos... eram meus 9 irmãos e irmãs e mais 23 primos e primas de minhas outras três tias. Nós éramos muito felizes”, relembra a aposentada de Diadema (SP), Vera Cristina Coelho, de 76 anos.

Apesar de toda a felicidade citada por ela, é fato que essas quatro mulheres, as mães, produziram, em média, oito crianças cada. Isso era muito comum naquela época e estava próximo dos elevados níveis de fecundidade observados no País. Segundo o IBGE, a taxa de fecundidade brasileira passou de 6,16 filhos por mulher em 1940 para níveis inferiores a dois filhos por mulher nas décadas seguintes.

O processo de redução das taxas de natalidade ganhou força a partir da década de 1960, período marcado pela disseminação de novos métodos contraceptivos, entre eles os anticoncepcionais orais. Com isso, as taxas de crescimento da população começaram a experimentar reduções, associadas também à queda da mortalidade e às sucessivas diminuições das taxas de fecundidade.

Uma pergunta que não quer calar: de que forma o simples lançamento de um produto farmacêutico no mercado, aparentemente tão pontual, pôde mudar tão drasticamente o destino de todas as famílias e, especialmente, de todas as mulheres no mundo? Elas passaram a dispor de maior possibilidade de escolha sobre sua vida reprodutiva, incluindo quando e quantos filhos ter.

Lá pelos idos de 1960, essas senhoras, que estavam acostumadas a cuidar dos filhos, marido e das tarefas domésticas, vislumbraram um horizonte antes inimaginável, ou seja, a possibilidade de ampliar sua atuação profissional e social. Conquistar maior poder sobre seus próprios anseios e necessidades contribuiu para mudanças relacionadas à saúde, cidadania, sexualidade e igualdade de gênero.

Por conta disso, descortinou-se uma nova trajetória que seguiu para uma ascensão feminina em diversos aspectos da atuação na sociedade. É uma revolução que permeia os anseios e desejos femininos de cuidados com o próprio corpo, com sua educação, vida profissional e relações afetivas e sexuais.

E tudo isso teve na pílula anticoncepcional um dos seus marcos. Em 1960, a FDA aprovou o Enovid como o primeiro contraceptivo oral, episódio considerado um importante marco tanto terapêutico quanto social na história da contracepção.

As meninas também estão diferentes

Essas mulheres educaram suas filhas de forma diferente. E as filhas educaram as suas filhas do mesmo modo. A nova geração, de netas e bisnetas da pílula, tem uma conduta que tende a ser mais contemporânea. Essas meninas iniciam sua vida sexual mais cedo, têm alguns parceiros antes de se casar e sentem-se menos receosas para lidar com a própria sexualidade.

De acordo com o Estudo Mosaico Brasil, coordenado por Carmita Abdo, da Faculdade de Medicina da USP, a pesquisa buscou mapear aspectos do comportamento afetivo e sexual dos brasileiros em diferentes capitais do País.

Essas adolescentes começam cedo e, cada vez mais, precisam de métodos contraceptivos. As pílulas anticoncepcionais, amplamente disseminadas ao longo das últimas décadas, foram responsáveis por importantes transformações no planejamento reprodutivo. Desde seu lançamento, muita coisa se modernizou no mundo da contracepção.

Vale lembrar que, logo no começo, as pílulas apresentavam doses hormonais muito superiores às utilizadas posteriormente. Com o passar dos anos, novas formulações foram desenvolvidas, com diferentes doses, combinações hormonais e perfis de uso, buscando atender às necessidades individuais de cada mulher.

Os fabricantes nacionais oferecem atualmente diversas opções de contraceptivos orais.

Claro que há diferentes métodos de contracepção, e nenhum deles é ideal para todas as pessoas. O que existem são alternativas que atendem necessidades específicas e proporcionam um leque amplo às mulheres que desejam evitar a concepção. Além da tradicional pílula e das camisinhas masculina e feminina, estão disponíveis anéis vaginais, implantes subcutâneos, dispositivos intrauterinos, adesivos e injetáveis, entre outros métodos.

O campo da pesquisa também é vasto, com diferentes tecnologias sendo estudadas para ampliar as possibilidades de contracepção.

A escolha do método deve considerar a preferência e as necessidades individuais da usuária. No entanto, é fundamental o aconselhamento de um profissional de saúde, levando em consideração os critérios médicos de elegibilidade para uso de contraceptivos estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde.

Dessa forma, as escolhas devem ser feitas pelas mulheres dentro de seu contexto individual, social e cultural, sempre levando em conta os aspectos clínicos e as condições que possam representar algum risco para a saúde, dependendo do método utilizado.

Para o ginecologista, obstetra e diretor Clínico da Clínica Mãe, Alfonso Massaguer, a contracepção é fundamental para a liberdade de escolha delas. “A mulher atual é moderna, inteligente e bem informada. Na maioria das vezes é capaz de romper com tradições e preconceitos, usando um método que atenda suas necessidades mais específicas”, diz.

Para o médico, embora exista uma ampla gama de possibilidades de contraceptivos, cada mulher poderá ou não se adaptar a um ou outro método. “Por isso é fundamental a consulta e seguimento com especialista que discutirá possibilidades e observará a adequação da paciente quanto aos métodos escolhidos e testados, até que seja possível atingir a satisfação”, aconselha ele.

O arsenal à disposição

  • Pílula combinada – método que combina estrogênio e progestagênio. É de uso oral diário e existem diferentes formulações, dosagens e esquemas.
  • Pílula só de progestagênio – comprimido diário contendo apenas progestagênio, utilizado continuamente de acordo com a formulação prescrita.
  • Anel contraceptivo – dispositivo flexível inserido na vagina, que libera hormônios continuamente.
  • Implante subcutâneo – pequeno bastonete inserido sob a pele do braço, que libera progestagênio gradualmente.
  • Adesivo transdérmico – colocado sobre a pele e responsável pela liberação contínua de hormônios.
  • DIU e SIU – dispositivos intrauterinos com ou sem hormônio, inseridos por profissional habilitado.
  • Injetável – método hormonal administrado por injeção, com diferentes intervalos de aplicação conforme a formulação.

Fonte: MSD

Contracepção desde o começo

  • 400 a.C. – Na Grécia antiga já existiam diferentes tentativas de controlar a fertilidade.
  • Século 2 – Soranus, médico grego que viveu em Roma, descreveu diferentes métodos destinados a evitar a concepção.
  • Século 16 – Materiais de origem animal passaram a ser utilizados como barreiras contraceptivas.
  • 1844 – A vulcanização da borracha possibilitou a produção de preservativos em maior escala.
  • 1870 – Desenvolvimento de modelos iniciais de diafragma contraceptivo.
  • 1960 – Lançamento do primeiro contraceptivo oral aprovado para essa finalidade.
  • Décadas seguintes – Desenvolvimento de anticoncepcionais orais com menores doses hormonais e diferentes progestagênios.
  • Anos 1990 e 2000 – Ampliação das opções com métodos injetáveis, dispositivos intrauterinos hormonais, implantes, anéis vaginais e adesivos transdérmicos.
  • Década de 2010 – Novas combinações e esquemas hormonais ampliaram ainda mais as opções disponíveis às mulheres.

Fonte: MSD

Nota editorial: Este conteúdo foi produzido originalmente pela equipe de jornalismo e conteúdos do ICTQ, com autoria de Marcus Andrade e revisão técnica do Diretor Acadêmico Ismael Rosa, CRF-GO 7311.

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