Sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Considerada uma ciência nova, a farmacoeconomia está baseada na economia da saúde especialidade surgida nos países desenvolvidos no período pós-guerra, como uma estratégia para melhorar a eficiência dos gastos no sistema de saúde. Ela pode ser definida como sendo a descrição e a análise dos custos da terapia farmacêutica para os sistemas de assistência à saúde e para a sociedade. A atividade identifica, mede e compara os custos e consequências de produtos e serviços farmacêuticos.
De acordo com o diretor de Acesso da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), Pedro Bernardo, a farmacoeconomia consiste no desenvolvimento de ferramentas para a tomada de decisões: “Os gestores de saúde, quando estão gerindo recursos, precisam decidir em quais tratamentos investir. A farmacoeconomia combina as evidências científicas e os benefícios que as tecnologias proporcionam com o custo que elas geram. Com isso, podemos comparar as escolhas”.
A farmacoeconomia representa um valioso instrumento que envolve avaliação e direcionamento de investimentos baseados numa distribuição mais racional de recursos. Isso permite aos profissionais da saúde a chance de conciliar as necessidades terapêuticas com possibilidades de custeio individual, seja das empresas provedoras de serviços ou de sistemas de saúde. “Isso tem permitido incorporar um novo critério – o econômico – na escolha de alternativas terapêuticas”, fala o professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisador do Instituto de Avaliação de Tecnologia em Saúde da UFRGS, Giácomo Balbinotto Neto.
Ele explica que a função da farmacoeconomia é identificar, medir e valorizar os custos e consequências das alternativas terapêuticas partindo do juízo de valor de que os recursos devem ser preferencialmente utilizados na produção de bens e serviços que geram maiores ganhos de saúde, em relação aos seus respectivos custos, observando, deste modo, o princípio normativo da eficiência econômica. “A importância dos estudos nessa área provém não de justificativas acadêmicas ou políticas, mas da constatação de que os gastos com saúde vêm crescendo em ritmo acelerado”, destaca ele.
O campo de pesquisa de farmacoeconomia está em evolução e torna-se cada vez mais necessário na avaliação de tecnologias em saúde (ATS). O objetivo de uma avaliação econômica não deve ser simplesmente cortar custos, mas usar os recursos disponíveis de forma mais eficiente para melhorar a qualidade do cuidado à saúde da população. A Organização Mundial da Saúde também destaca que avaliações econômicas ajudam gestores a analisar custos, benefícios e eficiência no uso dos recursos em saúde.
Tomada de decisões
Para Bernardo, existem diversas ferramentas usadas como referência para a tomada de decisões, como custo-minimização, custo-efetividade, custo-utilidade, custo-benefício, entre outras. No Brasil, essas abordagens são contempladas nas Diretrizes Metodológicas de Avaliação Econômica em Saúde da Conitec, utilizadas como referência para a elaboração e análise de estudos econômicos no âmbito do sistema de saúde.
“Precisamos desses estudos para responder a perguntas que são complicadas. Existem situações em que a tecnologia gera um benefício ligeiramente maior, mas o custo é muito mais alto. Como se toma uma decisão com relação a isso?”, indaga ele.
O princípio básico é unir estudos, pesquisas clínicas e demais evidências disponíveis com os custos. O custo é numérico e mais simples de comparar. Já os benefícios requerem outros critérios, como a sobrevida sem progressão da doença, por exemplo. É preciso eleger parâmetros. Existem diversos modelos para isso e, assim, chega-se a parâmetros que ajudam a tomar decisões.
Muitas coisas pesam, entre elas o fato de a doença ser crônica ou contagiosa. Isso implica em avaliações diferentes. “Uma doença contagiosa, por exemplo, não representa risco apenas para a pessoa contaminada, mas para as pessoas que possam ter contato com ela. É o caso do ebola. Quanto vale tratar o ebola? É preciso pensar no tamanho do problema, nos danos que uma epidemia possa provocar”, provoca Bernardo.
Já Balbinotto enfatiza que a indústria farmacêutica é um dos setores da sociedade que mais tem incorporado os estudos farmacoeconômicos como suporte nas decisões de investigar e desenvolver novos medicamentos. Eles ajudam na definição de estratégias, auxiliam na avaliação de preços e na inclusão de medicamentos em formulários e recomendações terapêuticas.
“Outra finalidade desses estudos é auxiliar as comissões de farmácia e terapêutica existentes nos serviços públicos e hospitais na decisão de incorporar medicamentos nos guias farmacoterápicos”, comenta ele. Essas comissões são responsáveis pela elaboração e manutenção atualizada de guias de medicamentos.
A aplicação clínica dos estudos farmacoeconômicos pode também beneficiar pacientes, profissionais envolvidos na assistência e a sociedade como um todo, incrementando a qualidade da assistência prestada e racionalizando os recursos.
A avaliação econômica em saúde é utilizada justamente para apoiar decisões sobre alocação de recursos e identificar quais intervenções oferecem melhor relação entre custos e resultados em saúde.
Ética
A questão que não quer calar: é ético utilizar o critério econômico na escolha de alternativas terapêuticas? “Toda escolha tem embutida uma renúncia. Por mais que se pense se é certo fazê-la, é preciso fazer escolhas; e não apenas na área de saúde. Para isso, são necessários critérios. Saúde é uma área de muitas incertezas, por isso procuramos evidências científicas para diminuir ao máximo o grau de incertezas”, defende Bernardo.
Para ele não existe mágica. Só se pode fazer aquilo que os recursos permitem. Não basta querer fazer mais. Na gestão de um hospital, por exemplo, é preciso conhecer o recurso disponível para administrá-lo e, com isso, otimizar esse valor. A farmacoeconomia ajuda na tomada de decisões deste tipo.
“Se isso é ético? Eu acredito que sim. Porque buscamos a melhor maneira de usar o recurso que está à mão. Procuramos tratar mais pessoas, curar mais doenças e resolver mais problemas com o recurso disponível”, pondera o diretor.
Para ele, a farmacoeconomia reúne ferramentas para a tomada de decisões que sejam benéficas à sociedade. Por isso, pode-se associar esta ciência a uma melhor gestão da saúde, em que mais pessoas recebam melhores terapias.
As soluções que a farmacoeconomia promove
A ciência e as ferramentas da farmacoeconomia ajudam o gestor a responder perguntas fundamentais, como:
- Qual a melhor droga para um determinado paciente?
- Qual a melhor droga para uma indústria farmacêutica desenvolver ou para um país investir?
- Quais drogas devem ser incluídas num protocolo médico?
- Qual o custo por qualidade de vida por uma droga?
- A qualidade de vida do paciente irá sofrer uma melhoria pela adoção de uma determinada terapia?
- Quais são os resultados para o paciente das várias modalidades de tratamento?
Nota editorial: Este conteúdo foi produzido originalmente pela equipe de jornalismo e conteúdos do ICTQ, com autoria de Egle Leonard e revisão técnica do Diretor Acadêmico Ismael Rosa, CRF-GO 7311.




