Terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Focar sua atuação em classes terapêuticas específicas e no desenvolvimento de medicamentos biotecnológicos é a grande tendência global dos laboratórios farmacêuticos. Segundo o presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma), Nelson Mussolini, este movimento está levando à especialização das indústrias, no sentido de concentrar recursos em pesquisas de determinadas enfermidades.
“No Brasil, grandes empresas de capital nacional, que ganharam musculatura com o crescimento do mercado, mantêm há anos projetos consistentes de inovação. Algumas investem nisso de 10% a 12% de seu faturamento e já possuem medicamentos patenteados”, ressalta.
O grande desafio da indústria farmacêutica instalada no Brasil é ingressar na esfera mundial da inovação. Para tanto, algumas correções de rumo precisam ser feitas. Uma delas é a necessária revisão da regra de preços, para que passe a remunerar os investimentos em pesquisa. Outro avanço diz respeito à redução do prazo de aprovação desses projetos.
Caráter incremental
Com relação às inovações, o presidente do Conselho Federal de Farmácia (CFF), Walter Jorge João, cita um trabalho de autores nacionais intitulado Indústria farmacêutica – Inovações tecnológicas, Pesquisa e Desenvolvimento, Medicamentos Genéricos. “Destaco um trecho que resume a questão da inovação no setor farmacêutico que diz que o diagnóstico feito com as maiores empresas farmacêuticas nacionais na pesquisa de campo revela que as trajetórias inovativas ainda são bastante incipientes e que a maior parte dos seus laboratórios internos de pesquisa e desenvolvimento se ocupam essencialmente de um caráter incremental dessas atividades”, lembra.
O presidente do CFF diz que as atividades internas de pesquisa e desenvolvimento vêm sendo implementadas, mas há um processo ainda bastante difuso com respeito às estratégias inovativas e concorrenciais. “Corrobora para isso o fato de que as maiores empresas farmacêuticas não lançaram ainda produtos inovadores para o mercado internacional, onde se obtém os incentivos econômicos para obtenção dos retornos dos investimentos em pesquisas”, menciona ele.
Medicamento biológico
O grande trabalho da indústria farmacêutica está voltado aos medicamentos biológicos. De acordo com o presidente-executivo da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), Antônio Britto, eles assumem um papel crescente, seja na inovação, seja na participação de mercado.
Com relação às pesquisas oncológicas, estimativas globais daquele período apontavam cerca de 14 milhões de novos casos de câncer e aproximadamente 8 milhões de mortes anuais. A todo momento surgem alternativas de tratamento com o objetivo de promover maior sobrevida, controle da doença e melhoria da qualidade de vida dos pacientes.
Há uma inovação causada pela associação entre a indústria farmacêutica e os laboratórios de algumas universidades e hospitais americanos para o desenvolvimento de um procedimento para o tratamento do câncer que vai além das tradicionais radioterapia, quimioterapia e cirurgia.
É o que está sendo chamado de terapia celular, ou CAR-T, tecnologia desenvolvida pela Novartis em colaboração com a Universidade da Pensilvânia. O tratamento consiste na coleta de células T do próprio paciente, seguida de modificação genética em laboratório para que essas células passem a reconhecer determinados alvos presentes nas células tumorais.
Depois de modificadas e multiplicadas, essas células são reinfundidas no paciente e passam a atuar contra o câncer. A parceria entre a Novartis e a Universidade da Pensilvânia foi formalizada em 2012 para pesquisa e desenvolvimento das terapias CAR-T.
No Brasil, o desenvolvimento de medicamentos biológicos revolucionários, como este, ainda estava distante da realidade observada nos grandes centros de pesquisa internacionais. Apesar de uma estrutura produtiva relevante, havia deficiência na base tecnológica do setor. “O Brasil precisa acordar rapidamente para essa questão e se lançar em projetos próprios de pesquisa, desenvolvimento e inovação em medicamentos para que a população possa se beneficiar com essas descobertas”, defende o diretor de Pesquisa do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, Marcus Vinicius de Andrade.
Nota editorial: Este conteúdo foi produzido originalmente pela equipe de jornalismo e conteúdos do ICTQ, com autoria de Egle Leonard e revisão técnica do Diretor Acadêmico Ismael Rosa, CRF-GO 7311.




