Prescrição e uso de peptídeos estão em alta, mas a Anvisa alerta: sem regularização, é clandestino

Prescrição e uso de peptídeos estão em alta, mas a Anvisa alerta: sem regularização, é clandestino

Peptídeos deixaram de ser um tema restrito à bancada e passaram a circular como promessa de resultado rápido em consultórios, clínicas e redes sociais. Em meio a protocolos com apelo de emagrecimento, estética, performance e longevidade, cresce a procura por substâncias que nem sempre têm o básico: comprovação clínica consolidada, qualidade assegurada e regularidade sanitária.

O problema não é a existência dos peptídeos na terapêutica, e sim o atalho que se tenta impor entre pesquisa e uso humano. Enquanto alguns compostos contam com décadas de estudos e aprovação regulatória, outros ainda estão em fases pré-clínicas ou iniciais de ensaios, sem dados suficientes de segurança, dose ideal ou efeitos de longo prazo.

Peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos que atuam como mensageiros biológicos no organismo e conseguem interagir de forma mais específica com receptores celulares, modulando processos como metabolismo, inflamação, cicatrização e sinalização hormonal. Essa característica favorece o desenvolvimento de terapias mais seletivas e, potencialmente, com menor incidência de efeitos colaterais quando comparadas a fármacos clássicos.

A discussão, portanto, não é ser contra ou ser a favor dos peptídeos, mas entender onde termina a inovação e onde começa o improviso. O farmacêutico, doutor em ciências e professor do ICTQ - Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, Pedro Sousa, resume a tensão que move o tema: “Esse crescimento levanta uma pergunta central: estamos diante de uma evolução científica consistente ou de mais um movimento impulsionado pelo marketing e pela simplificação excessiva da ciência?”.

O que a ciência já entregou

Apesar do barulho recente, peptídeos não são novidade na medicina. Diversos medicamentos amplamente utilizados são terapias peptídicas consolidadas, do ponto de vista químico. Entre os exemplos mais conhecidos estão a insulina e seus análogos, pilares no tratamento do diabetes, e agonistas do receptor GLP-1, como semaglutida e liraglutida, com uso estabelecido no controle glicêmico e no tratamento da obesidade.

Ao mesmo tempo, a inovação segue acelerada e oferece um retrato nítido da fronteira entre promessa e prática. Sousa cita a retatrutida, descrita como um peptídeo de ação tripla que atua simultaneamente nos receptores GLP-1, GIP e glucagon, com estudos avançados apontando resultados expressivos em perda de peso e melhora metabólica. Ainda assim, o próprio especialista reforça o ponto decisivo para a segurança do paciente: ela não possui aprovação regulatória para uso clínico e permanece restrita a protocolos de pesquisa.

A diferença entre esses dois mundos importa porque o mercado informal costuma ir na carona do prestígio do que já é consagrado em moléculas que ainda não passaram pelo crivo necessário. Paralelamente aos peptídeos aprovados, existe muitos compostos que circulam sem respaldo científico adequado, associados a regeneração tecidual, secreção de hormônio do crescimento, bronzeamento, performance física e longevidade.

Segundo Sousa, em muitos desses casos, não há ensaios clínicos robustos, padronização de dose, dados consistentes de segurança, nem aprovação por agências regulatórias. E a existência de estudos experimentais não autoriza uso clínico indiscriminado, muito menos comercialização para uso humano.

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Quando o hype vira risco real

Na avaliação de Sousa, o principal desafio atual não é a existência dos peptídeos, mas a forma como eles vêm sendo comunicados e utilizados fora do ambiente científico. A transformação de moléculas em estudo em soluções prontas cria um ambiente em que conceitos complexos da farmacologia são reduzidos a promessas simplistas, muitas vezes desvinculadas da realidade científica.

As redes sociais têm papel central nessa amplificação. Conteúdos em plataformas como Instagram e TikTok viraram vitrines de peptídeos apresentados como atalho para emagrecimento, rejuvenescimento, ganho de performance ou recuperação física, com postagens que divulgam esquemas de dosagem, associam resultados a antes e depois sem controle científico e indicam sites estrangeiros que vendem essas substâncias.

De acordo com o farmacêutico, esse tipo de comunicação cria falsa percepção de segurança e eficácia, mesmo quando se trata de compostos ainda em estudo ou sem qualquer validação clínica. O risco aumenta quando profissionais de saúde, ainda que indiretamente, participam da narrativa e conferem legitimidade a práticas sem respaldo científico ou regulatório.

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Há também o risco mais básico, e frequentemente ignorado: a origem e a qualidade do que está sendo comprado e aplicado. Peptídeos vendidos fora de canais regulamentados não estão sujeitos a boas práticas de fabricação, controle de pureza e concentração, testes de esterilidade, rastreabilidade de lote e farmacovigilância, o que expõe o usuário a reações inflamatórias, infecções, respostas imunológicas imprevisíveis, desregulação hormonal e efeitos adversos desconhecidos.

No plano ético e jurídico, Sousa alerta que indicação, prescrição ou incentivo ao uso de substâncias não aprovadas pode gerar consequências graves, incluindo processos éticos, responsabilização civil e sanções legais. Para o paciente, a vulnerabilidade é maior porque não há garantias de procedência, nem suporte adequado em caso de eventos adversos.

É por isso que o farmacêutico sintetiza o recado sem margem para romantização: “A ciência dos peptídeos é real. O hype é opcional. A responsabilidade é obrigatória”.

O que diz a Anvisa sobre regularidade e alegações

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) chama a atenção para um ponto que costuma ser distorcido pela própria popularização do tema: “Os peptídeos não são produtos, mas sim cadeias de aminoácidos que podem estar na composição de diferentes produtos”.

Na prática, a Agência explica que sua atuação é objetiva sobre produtos regulados e varia conforme os critérios técnicos de cada categoria. Por isso, define regras de regularização para categorias como medicamentos, produtos para saúde, cosméticos, suplementos alimentares e outros alimentos específicos.

O divisor de águas, segundo a Anvisa, é a regularização: “Qualquer produto dessas categorias que não esteja regularizado é um produto clandestino, que não tem qualquer garantia de procedência, composição, eficácia ou segurança”.

E, quando o discurso vira promessa de tratamento, a regra é ainda mais objetiva: “No caso das alegações terapêuticas, somente medicamentos registrados podem trazer essas indicações”.

A Anvisa também reforça que prescrição de medicamentos ou produtos de saúde é atividade profissional regulada e fiscalizada pelos conselhos profissionais, o que recoloca o farmacêutico no centro do tema, não como espectador, mas como barreira técnica contra o improviso.

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